Marcela – IV

IDADE 12
Ela estava atrasada. Não atrasada tipo problema-mensal-feminino. Há mais de um ano ela era relembrada todo mês sobre a principal diferença entre homens e mulheres. Também não era do tipo atrasada-para-a-aula. Ou do tipo vou-chegar-em-casa-depois-da-hora-que-minha-mãe-determinou.
Ela estava atrasada nos beijos.
Tinha doze anos e não tinha beijado ninguém. Enquanto a prima já exibia certa experiência, ela se enrolava em conseguir com que algum garoto encontrasse o caminho para seus lábios; não importava quantas brincadeiras que envolviam beijos ela se enfiava, sempre acabava sem sorte ou assustada de mais para fazer qualquer coisa.
Não é a toa que seu primeiro beijo acaba sendo praticamente forçado e, bem, desastroso. Ela nunca fica sabendo ao certo, mas tudo indicava que o garoto da oitava série que a prensou contra a parede do corredor no intervalo da aula numa quinta-feira estava apenas pagando uma aposta. De primeira, ela ficou chocada e sem saber o que fazer, acabou retribuindo o toque grosseiro de lábios que o menino tinha. Ela tinha acabado de comer salgadinho de cebola e ele tinha gosto de merenda escolar. Ela nem sabia o nome dele, nem nunca quis saber. Se era para ser ruim assim, que ela tivesse o mínimo possível de informações.
É com mais surpresa ainda que, poucos dias depois, Marcela encontra Johnny na rua de sua casa. Ela é pouca coisa mais alta que ele, mas vive ouvindo a tia dizer como o priminho vai dar uma espichada logo, por isso acha que ele ainda tem chance de ficar alto e forte. Ele ainda tem os traços indígenas e olhos escuros que ela também sustenta, mas o sorriso dele mudou – é confiante de um jeito diferente.
Ele sempre soube que era bonito.
Ele afirma que ela nunca esteve tão bonita e que bem queria vê-la. Desde que ele mudara de escola, eles não se encontravam com tanta frequência e o aniversário dele estava chegando. Ele estava com medo de não conseguir fazer o convite pessoalmente, como sempre fazia.
E Marcela, que quase tinha considerado nunca mais beijar ninguém após a primeira experiência, que tinha certeza que seus sentimentos por Jonas já tinham deixado de existir faz tempo, e que, acima de tudo, tinha certeza que ele não sentia mais do que amizade por ela, respondeu que não havia nada no mundo que a faria perder o aniversário de 13 anos do velho amigo, foi beijada ali mesmo, na rua, rápida e delicadamente, do jeito que o primeiro beijo deveria ter sido.
Como se pudesse apagar a primeira impressão, ela decidiu que agora sim havia sido beijada e repetiu o fato vezes o suficiente para se convencer disso, mesmo que só um pouco.

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One response to “Marcela – IV

  1. Oh Deus! Como se todos os primeiros beijos fossem bons né? Pelo menos ela teve o beijo dele.
    O Post anterior brecou o meu comentário, então lá vai -parte do que eu lembro: Adorei o tema novo (colocando o dedo).

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