Éden – Capítulo 2

CAPÍTULO 2

De todos aqueles livros e filmes épicos, lendários de quase um par de séculos atrás, eu nunca vi uma protagonista que não fosse “revoltadinha”. Pode ter sido desde o início ou ela pode ter se tornado, mas sempre tem uma dada a rebeliões. Todo mundo colocava essa aura fabulosa ao redor da mocinha que fazia de tudo para lutar contra o governo opressor e conseguir liberdade.
Acho engraçado esses livros não terem sido banidos da face da Terra, já que eles demonstram basicamente o que a realidade atual significa, mas o argumento deles – do nosso governo – é outra. Eles pegam esses tantos livros e filmes, esfregam na nossa cara e falam: estão vendo? É isso que não queremos nos tornar. Todo esse ódio e culpa não pode fazer parte do nosso cotidiano. Vamos todos amar uns aos outros.
Maior baboseira.

Às vezes, eu me sinto a protagonista revoltadinha.

Dizem que toda família tem um tomate podre para estragar sua reputação, mas também dizem que minha família é premiada. Desde sempre, não somente eu, mas também meu primo mais velho nunca fomos “naturais” nesse amor todo.
Dony era agressivo. Não que ele arrebentasse a cara de todo mundo, mas ele nunca foi conhecido por sua paciência. Meus tios bem que faziam de tudo para abrandá-lo – natação, yoga, Tai Chi Chuan – mas nada surtia o efeito necessário. A parte mais divertida era que o irmão dele – Artur, poucos meses mais velho que eu – é o carinho em pessoa, tão amoroso que chega alterar nossa dose de glicose no sangue.
Nascer nesse ambiente paz e amor mostra que é muito simples ser simples; apreciar o verde das árvores, ou o gesto carinhoso de sua mãe ao fazer café da manhã, ser grato do fundo do coração a essas pequenas coisas… É bonito. Essa incondicionalidade ao olhar para o mundo com olhos puros é tão belo! É realmente muito simples, como se tudo se conectasse naturalmente.
Eu sei ver o mundo dessa forma. Sei enxergar as nuances que fazem um dia nublado ser tão bonito quanto um ensolarado. Aprendi isso como todo mundo aprendeu, em casa, desde o berço. Mas não consigo me lembrar de alguma vez isso não ter me entediado.
É como se eu sempre tivesse a impressão de que tudo era tão falso, como se todo esse papo caloroso sobre o universo e suas maravilhas fosse forçado de mais. Não era possível que só eu pensasse assim.

Minha mãe sempre falava que meu primo Dony era meio perturbado – o que, convenhamos, não é uma coisa muito amorosa a se dizer, mas Jasmim Pires nunca se destacou por sua lábia requintada -, por isso eu sempre soube que ele era meio perturbado. Ele chorava muito quando bebê, ela dissera, não gostava de ninguém, embora todos mostrassem o quanto gostavam dele. E quando ele tinha idade suficiente para estar na escola, surpreendia pela sua eloqüência e pelo bullying que praticava com tanta facilidade. A violência de Dony era mental.
Quanto a mim, eu era o bebê perfeito. Linda, com grandes olhos azuis e chachos laranja, riso fácil, esperta. Eu chamava atenção porque herdei as melhores características dos meus pais: a beleza de mamãe e a capacidade de atrair – mais que isso, agradar – multidões sendo apenas eu mesma, tendo um discurso bem humorado e acolhedor, características do meu pai.
Meu avô falava que eu era fatal. Eu gosto dessa definição.
Três anos depois do “efeito Dony”, quando Artie e eu nascemos, parecia que a maldição de nossa família torta tinha acabado, quando na realidade estava adormecida.
Eu tinha quatro anos e Dony sete quando recomeçou. Dony chamava Artie e eu com frequencia para alguma brincadeira secreta que nós nunca íamos, porque Artur sempre sofria e morria de medo do irmão na maioria do tempo. Um dia, fiquei acordada à tarde e, enquanto Artie dormia, ele me chamou.
A brincadeira era tão idiota quanto o medo do Artie: imitar em travesseiros as pancadas de velhos vídeos de lutas que costumavam fazer parte das Olimpíadas um século atrás.

Aos quatro anos, eu estava com meu primo abrindo nosso pequeno ringue de boxe.

Isso não seria nada se na escolinha em que Artie e eu estudávamos não houvesse algumas versões equivocadas do Dony, que faziam questão de maltratar meu priminho. Artur, no alto de seus cachos loiros e olhos azuis tão grandes quanto os meus intensificados pelos óculos que ele gostava de usar, era alvo de zuação todo santo dia. Gostam tanto de falar que as crianças são o melhor exemplo de inocência que acabam esquecendo o quanto elas podem ser cruéis.
Quando achou que já tinha sofrido o suficiente, Artie recorreu à única pessoa que ele, tecnicamente, teria que evitar: o irmão mais velho. Dony, sendo um bullie de respeito, deu um conselho mais estúpido ainda: Artur devia parar de sofrer na mão dos outros e começar a praticar o sofrimento, devia passar a ser o torturador.
Eu falei que meu primo tinha probleminha.
Teria sido bom se Artie tivesse reparado que aquele era o pior conselho do mundo, principalmente por ser incapaz de fazer mal a uma formiga, mas a vida não segue roteiro e ele tentou começar suas práticas “bullycas” justo em mim. Eu. Sua prima do coração que sempre o defendia.
Eu sei que vir tentar alguma graça para cima de mim era um desafio dos meninos para deixar o Artur entrar no grupinho deles e, em minha defesa, devo dizer que achei bem bacana ele tomar alguma atitude em relação ao jeito que era tratado, mas pelo amor de Deus, Artie sabia muito bem que não conseguiria passar por cima de mim nem em um milhão de anos.
Foi explicando para a diretora, na frente dos meus pais e tios, porque Artie tinha um hematoma no braço e na testa (frutos de um soco bem dado e uma cabeçada – ninguém o mandou insistir em me empurrar e derrubar no intervalo) e diante dos olhares de choque e descrença da maioria deles que eu percebi talvez ser meio perturbada também.

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2 responses to “Éden – Capítulo 2

  1. Acho que eu estou entrando nessa onda de ser perturbadinha também porque estou gostando do Dony. (Eu disse, perturbadinha). E CACHOS LARANJA, FIA NÃO CURTI NÃO ACHEI OFENSIVO. E tá lindo, mds.

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