Éden – Capítulo 3

CAPÍTULO 3

Os pais de Dony e Artie não são meus tios, Fantine é prima do meu pai. Ela é a mais velha e eles praticamente cresceram juntos. Fanny se mudara para fazer faculdade e eles só se reencontraram quando meus pais resolveram voltar a estudar, calhando de ir para a mesma cidade que ela morava.
Foi a própria Fanny quem desencorajou a ideia dos meus pais de ter mais filhos, porque, aparentemente, as duas crianças dela davam dor de cabeça de maneiras diferentes. “Micha é tão linda, para que brincar com a sorte?” ela dizia.
Mamãe falou que com o nome que ela tinha, só podia estar fadada ao sofrimento (não consigo imaginar de onde veio minha acidez) e teve Anna e Breno do mesmo jeito – um filho a mais do que o “aceitável”; os dois foram bebês tão perfeitos quanto eu, sem a parte de gostarem de luta como eu gosto.

Sempre sinto como tendo que explicar exatamente o meu nível de parentesco com Dony, porque todo mundo acha nosso relacionamento meio esquisito. Até eu mesma acho, às vezes, mas é complicado. Pode soar meio Katniss e Peeta, mas nós protegemos um ao outro desde sempre.
A ligação que nós temos é, antes de qualquer coisa, familiar e eu tenho Fanny e Bob como meus tios de verdade, porque ambos meus pais são filhos únicos. Além deles, o mais próximo de tios que tenho são Alex e Lira, que têm um filho da idade da minha irmã, mas isso já é nome de mais para decorar.
Dony deve ter visto desde o início no jeito de eu me portar, como eu falava com as pessoas e como meu olhar sempre foi determinado que eu era como ele. O que todo mundo via como simpatia, ele via como potencial. Minha lembrança mais antiga é ele colocando o braço em volta do meu pescoço e soltando um “Você é muito melhor que eu nessa coisa toda, priminha. Você pode fazer as coisas mudarem.”
E pode até ter começado por causa de toda a censura ao redor do temperamento explosivo dele, e eu posso não ter entendido a dimensão da coisa na época, mas o negócio ficou sério até chegar ao que é hoje, quase quatorze anos depois.

Intervenção para amar todo mundo é que nem eleição: você pode fazer aos dezesseis anos se quiser e será obrigado a isso quando chegar aos dezoito.
Eu não queria, muito menos o Dony. Foi por isso que ele armou o plano mais mirabolante do universo, observando bem todos aqueles que passavam pelo processo de intervenção antes e depois, anotando e arquitetando um modo de ser trazido de volta. Tudo precisava ser perfeito, sincronizado e, é claro, ele precisaria da minha ajuda.
Porque eu sou a melhor nessa coisa toda. Porque posso fazer as coisas mudarem.
Baita responsabilidade.
E não é que ele estava certo?

Três anos trás, um dia antes da intervenção de Dony, ele deu uma festa secreta no nosso barracão, na qual finalmente me contou os detalhes do que queria fazer, como vinha testando isso em uma colega da escola e meu papel nessa trama toda. Ele precisaria da minha paciência para ensiná-lo novamente os caminhos da revolta, conseguir trazê-lo de volta para o clube da luta.
Eu sabia que não seria difícil, porque ele é natural na arte da rebeldia, mas lá no fundo eu tinha medo. Medo dessa filosofia melosa que domina a Terra por mais de um século tomar meu primo, meu melhor amigo de mim com tudo que ele tem de melhor, toda a individualidade que faz dele o Donald Ferreira que nós conhecemos. Eu tive medo de vê-lo tornar-se um estranho e que tudo que criamos juntos virasse pó no momento em que eu sofresse minha intervenção também.
E, por mais que eu soubesse que as memórias não se vão quando a intervenção ocorre – elas só se tornam inúteis, caso o Conselho as ache perigosas -, por mais que eu soubesse que o verdadeiro Dony estaria ali, esperando para quebrar a superfície, eu, que nunca sinto medo de nada, tive naquele dia, quando voltamos para casa no meio da madrugada a pés e ele me deu um beijo na testa de até logo, a maior onda de pavor que já senti na vida.
Ainda bem que eu o conhecia quase melhor que a mim mesma, ou estaria morta por dentro.

Pior ainda. Se eu não conseguisse trazer Dony de volta, eu provavelmente seria outra desses ansiosinhos pegando seu título de eleitor aos dezesseis.

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