Éden – Capítulo 5

CAPÍTULO 5

Começou com a conversa com uma serpente – simples assim. “É mentira. Você não vai morrer se comer o fruto. Você vai ser tão conhecedora do bem e do mal quanto Ele.” “Vamos assistir alguns vídeos de luta que achei na internet. E praticar. E esse filme! Já pensou a gente abrir nosso próprio clube da luta?
Uma decisão e sua vida muda para sempre. Mesmo que você só tenha quatro anos na época.

Depois daquela tarde que o Artie dormiu e eu não, Dony e eu passamos a imitar todos os tipos de luta que descobríamos. Implorei para que meus pais me colocassem no Tai Chi, aprendi a ler mais cedo para pesquisar vídeos na internet.
Mas foi só quando eu tinha nove anos e nós descobrimos o barracão nos limites da cidade que a ideia do clube da luta tomou forma.
The Beat – como os íntimos gostam de chamar o barracão – é um enorme galpão que pertence à polícia e exército. Nele estão guardadas praticamente todas as ferramentas de treinamento do exército de antes que não estão no Museu da Artilharia. O lugar nunca é usado, a não ser que eles tenham que guardar mais coisas. Nele você encontra desde alvos em forma humana até tanques de guerra. Tudo tem manual, inclusive os rifles e sacos de areia.
Não é interessante que o paraíso sem violência não tenha queimado tamanho arsenal? Quero dizer, para que alguém iria querer guardar tudo isso, todas essas coisas perigosas? Já pensou se crianças descobrissem?

Nós estávamos rodando a cidade de bicicleta e resolvemos seguir um caminhão azul e vermelho só porque ele parecia Optimus Prime – foi como descobrimos o barracão nos limites da cidade. O caminhão levava partes de um tanque de guerra cuja pintura de camuflagem estava desbotada.
Graças à memória impressionante de Dony, pegamos a senha da tranca e descobrimos um acervo assustadoramente incrível de leitura militar. Lemos tudo que estava ao nosso alcance por meses.
Nós observávamos o único segurança do lugar, só para garantir a senha e entrávamos toda noite, como se abríssemos o Mapa dos Marotos. Juro solenemente não fazer nada de bom. Em um ano e meio, Dony já tinha aprendido a fazer um silenciador e tentava usar as armas menores. Mas o ringue e os sacos de areia me atraiam muito mais.

Foi só no meu aniversário de doze anos, quando colocaram uma venda em meus olhos e me levaram na garupa de uma bicicleta para o canto afastado da cidade onde ficava o barracão, que o lugar realmente virou The Beat.
Uma quantidade impressionante de crianças (seis, para precisar. Oito, se contasse Dony e eu) entre onze e dezessete anos estava lá, incluindo Gígio, um amigo de Dony que incomodava por seu interesse extremo em tecnologia. Gígio foi importante porque ele desenvolveu um aparelhinho capaz de ler a senha da tranca automaticamente. Naquela noite, ele conectou o aparelho dele à tranca de um jeito muito ninja e nós nunca mais precisamos ficar espionando os guardas para saber se a senha tinha mudado e qual era a nova.
Descobri que eu não era a única pessoa que Dony levava para o The Beat e que o pai de uma das crianças – Tadeu – trabalhava no inventário do galpão uma vez por semana. E naquele dia, Tad convenceu o pai a levá-lo consigo e sugeriu algumas mudanças na organização do local.
Quando a grande porta foi aberta, vislumbrei o melhor ringue de boxe do universo, com os sacos de areia pendurados, prontos para receber algumas pancadas. Os alvos de tiro estavam dispostos bonitinhos no fundo do galpão, como se aquele depósito fosse uma extensão do próprio Museu da Artilharia que, naquele ponto, nós já conhecíamos como a palma de nossas mãos.

Eu não deveria ficar surpresa ou insultada por Dony levar mais gente para o Beat sem mim, e não fiquei mesmo quando, poucas semanas depois, na época em que os desafios de luta começaram, vi Ollie no meio da galera.
E caso você esteja curioso, existe sim aquela coisa Delírio/Destino de pareamento de pessoas no mundo de hoje. Brega, mas útil. Principalmente porque é meio diferente. Porque veja só, as pessoas são pareadas de modo que elas crescem conhecendo sua cara-metade mesmo quando não sabem que ela é sua cara-metade (como eu não sabia sobre o Ollie); eles fazem isso para que tudo seja condicionado ao casamento no pós-intervenção da forma mais natural possível.
E sabe qual a melhor parte? Se der errado e você e seu par não se apaixonarem, sua intervenção faz você aprender a viver com isso sem sofrer. Como quem não vê problema em ficar para tia.
Acho isso meio genial, para ser sincera. Principalmente porque você não vai sentir urgência em se apaixonar por outra pessoa. “A intervenção faz com que você compreenda as etapas da vida.
Bem genial.

Agora sobre Ollie.
Oliver Martin é duas semanas mais velho que eu. Ele tem a pele naquele moreno café com leite perfeito, porque a mãe dele é negra e o pai é branco. A pele do Ollie sempre foi a coisa mais maravilhosa que eu já vi na vida. E os olhos verdes despreocupados, como quem não quer nada ou não liga muito para o que está vendo. Seu cabelo preto era de um cacheado displicente encantador desde que eu conseguia me lembrar dele, o que deve ser mais ou menos no jardim de infância. Ele usou aparelho por boa parte do ensino fundamental, o que inclui aquela noite em que ele apareceu no Beat, mas hoje é dono do sorriso mais encantador do time de natação.
Ele até ganhou uma medalha na ultima Olimpíada!
Seus pais são médicos e trabalham na intervenção em si e seus projetos. Não tenho a menor ideia de como a gente foi pareado, porque meu pai, Alan Pires, é economista e minha mãe é arquiteta.
Não quero ser toda Bella Swan sobre isso, mas até aquela noite no Beat eu nunca achei que Ollie poderia se interessar por mim. Quero dizer, existe toda uma hierarquia no sistema de pareamentos, então alguém me devia (ainda deve, para falar a verdade) uma boa explicação no porque um filho de médico foi pareado com uma filha de economista.
Ele deve ter feito alguma coisa. Tipo chorar errado quando nasceu, porque todo mundo odeia bastante os economistas. Odiavam antes, continuam odiando hoje.

A questão sobre Ollie aparecer no Beat aquele dia foi o calor do momento. Eram férias de julho e com apenas três semanas nós já tínhamos dobrado a quantidade de crianças participando das nossas atividades clandestinas. Eu estava, ao mesmo tempo, surpresa e empolgada com a quantidade de crianças dispostas a quebrar as regras ali e é claro que eu sabia que a maioria delas não tinha o menor interesse em revoluções, elas só queriam um pouco de indisciplina, era legal que mais gente soubesse que esse mundo não era só paz e amor, que existem outros tipos de diversão.
Ninguém do Beat que passava pela intervenção tinha alguma intenção em voltar, mas a semente estava plantada.
Foi o próprio Gígio quem me viu socar um dos sacos de areia naquela primeira semana oficial de Beat e soltou um:
“Por que nós não fazemos o nome disso aqui acontecer, heim? Beat.” E como ninguém entendeu o que ele quis dizer, ele completou. “Como aquele filme bizarro que a gente assistiu, Dony. Um clube da luta de verdade.”
No primeiro dia de Ollie, eu estava derrubando Aline – uma garota um ano e dez quilos maior que eu – porque eu posso, quando o avistei rindo divertido no meio da galera. Eu reparei que ele estava olhando bem para mim, sorrindo com o aparelho com borrachinhas verdes aparecendo e lembro que pensei “para combinar com os olhos” como sempre pensava quando o via e ele olhava para mim, verde no azul; e Aline puxou meu cabelo, soltando o lacinho (o que é a coisa mais idiota a se fazer em uma luta), me deixando muito puta, de um jeito que era raro eu ficar.
Ela desabou no ringue com o meu cruzado de esquerda mais gangster – que chama assim mesmo e todos tentam imitar sem sucesso – e eu joguei o cabelo para trás, sorrindo e fazendo uma grande cena. Até ouvi alguém me chamando de Merida, mas estava ocupada curtindo a platéia antes de falar.
“E então, quem é o próximo?”

Foi a primeira vez que Ollie levou uma surra de mim.

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