Éden – Capítulo 6

CAPITULO 6

“Mas o não eu não pode ter o mau, quer dizer, eles lá do governo e os juízes e as escolas não conseguem permitir o eu.”

É minha citação preferida do meu livro preferido. Eu customizei a capa do diário de Dony com esse quote.
Meu Laranja Mecânica é o brochura mais lindo e manuseado do universo. As folhas amareladas de uma edição de colecionador datada de quatro gerações atrás têm anotações nas bordas, marcas de leitura e frases grifadas com marca-texto desde quando ele pertencia ao meu tataravô. É meio que um milagre as folhas não despencarem.
Encontrei esse livro no meio da pequena biblioteca da família da minha mãe. Eu tinha onze anos e meio e ele me chamou a atenção pelo titulo, porque eu tinha certeza já ter ouvido falar sobre o filme. Quando o tirei da estante e vi a quantidade de anotações e papeletes que ele possuía… era como se ele falasse comigo. Na folha de rosto, os nomes.
Vagner Gomes.
Caio Gomes.
Paulo Gomes.
Mini Gomes.
O nome de solteira da minha mãe, o livro tinha passado por ela também. Escrevi o meu logo abaixo.
Micha Pires.
Laranja Mecânica tinha um novo dono e eu fui correndo ler. É óbvio que não entendi nada, mas foi meu primeiro contato com o livro que mudaria minha vida um pouco mais.

Os dias que seguiram o retorno de Dony – do novo Dony – foram esquisitos. Os garotos do Beat começaram a não aparecer, alguns chegavam até a me evitar na escola, com medo de eu exigir explicações, mas eu sabia o que estava acontecendo. Dony dissera que voltaria, que a intervenção não o dominaria. E ele não estava mostrando o menor interesse em voltar – pelo contrário, parecia muito bem, obrigado.
E se mesmo Dony, o Dony esquentadinho, líder de rebeliões, estava bem, talvez a intervenção não fosse tão ruim quanto ele gostava de nos fazer acreditar antes.
O relógio estava correndo e eu não conseguia distinguir se Dony estava pelo menos tentando, nem que fosse só para me agradar. Tudo que eu via era meu primo sorrindo artificial e errado, porque era como parecia. E preso, como um estranho num corpo conhecido, da mesma forma que eu estava presa sem saber o que fazer.
Só me restava o Beat e os livros, por isso eu passava boa parte da noite espancando um saco de areia com toda a força e raiva que eu conseguia reunir, sozinha, esperando o dia que até eu mesma não teria coragem ou vontade de aparecer ali – o que viesse primeiro. Farewell, Beat.
E então, ela apareceu.

Grace Vieira tinha dezoito anos, pele negra, cabelos cacheados tão longos quanto os meus e olhos de jabuticaba que, na ocasião, estavam inchados e vermelhos de choro. Ela era o par de Dony e tinha passado pela intervenção quase um mês antes dele. Não vinha ao Beat com muita frequência, mas sabia como as coisas funcionavam.
Sempre achei engraçado ela e Dony terem sido pareados, porque são o oposto um do outro em tudo, Dony todo branquinho, com cabelos castanho claro e os olhos azuis que são a característica da nossa família. E Grace é tão calma! Como se ela realmente tivesse nascido para viver nesse mundo hippie.
Poderia ser um Karma para ela, ter que agüentar meu primo pelo resto da vida, ter que, de alguma forma, se apaixonar por ele. Mas não.
Porque eu nunca vi Donald Ferreira amar tanto alguém como ele amava Grace.

Ela chegou para mim fungando e incerta, vestindo o casaco do grupo de hip hop que fizera parte antes da intervenção, as mãos enfiadas nos bolsos, nervosa. Era um sinal. Hip hop era a dança dos novos e destemidos, ninguém passa pela intervenção e tem interesse em expressar-se com o corpo daquela forma displicente.
A dança de rua era a única expressão e revolta de Grace, era o grito de rebeldia da filha do prefeito.
“Seu primo passaria a vida tentando imitar seu cruzado gangster.” Ela falou e eu sorri.
“Eu sei.” Falei, dando mais uma pancada no saco de areia antes de parar. “Tudo beleza, Grace?”
Ela olhou para o chão e respondeu sem levantar os olhos.
“É… eu estava na casa dele agorinha… Foi…” ela olhou para mim, os olhos cheios de lágrimas. “perturbador.”
Aquilo me fez franzir a testa.
“Como assim?”
Grace se mexeu de uma perna para a outra, claramente desconfortável, encheu o peito de ar e falou de uma vez.
“É como se ele não fosse o Dony que eu me apaixonei! Ele está completamente diferente, a intervenção não é para fazer isso! Quero dizer, não podem fazer eu amar uma pessoa e me entregar outra completamente diferente. Dony é meu do jeito que ele costumava ser, e não esse romântico francês que apareceu à minha porta duas semanas atrás. Quero o amor da minha vida.”
Dony e Grace gostavam bastante de usar a palavra com A quando falavam um do outro.
“Okay…” eu falei devagar. “E onde eu entro nessa história?”
Grace subiu onde eu estava. Ela era quase uma cabeça mais alta que eu. A gente não costumava conversar muito, porque, para falar a verdade, a única coisa em comum que temos é meu primo, mas vi naquele momento uma determinação nos olhos dela, uma certeza que mereciam minha atenção.
“Dony estava me fazendo escrever um diário. Ele falou que isso aconteceria, que ele se perderia e precisaria ser reencontrado. Falou que eu precisaria me encontrar primeiro, por isso me fez escrever, gravar vídeos falando das coisas que eu gostava de fazer, tudo que fazia de mim a pessoa que eu era. Ele me pediu para ler esse diário quando eu voltasse da intervenção, pediu que eu pedisse a mim mesma para ter a mente aberta.”
Eu poderia ter previsto essa, que Grace era a colega que Dony vinha fazendo alguns experimentos. Fazia sentido. Anui para que ela prosseguisse.
“No dia da festa, ele me deu um cartão de memória, me pediu para ver o conteúdo só quando eu tivesse certeza de que você tinha entregado o diário para ele e que ele estivesse lendo.”
“Espera aí,” cortei. “ele está lendo?”
Grace confirmou com um aceno rápido de cabeça.
“E achando bem babaca. Mas sim.”
Eu devo ter feito uma cara bem desapontada, porque ela acrescentou.
“Eu olhei o cartão de memória, Micha. É um video.”
“Ah, é?” Aquilo não me surpreendia também. Dony era muito visual. “Sobre?”
“É um pedido. Ele falou que seria impossível voltar, a menos que nós duas trabalhássemos juntas para resgatá-lo. Ele não vai conseguir isso sozinho e só uma de nós não daria conta. E olha, eu não entendo a conexão de vocês dois muito bem e nunca entendi, mas sei que ele está certo. Nós duas podemos reverter o Dony.”
Vou ser sincera, fazia sentido para mim também. Inclusive fiz que sim com a cabeça algumas vezes, séria. Eu estava tentando traçar um caminho alternativo em minha cabeça que coubesse Grace e eu no mesmo plano.
“Okay, entendi.” Falei e olhei para ela. “Mas não sei por onde começar.”
Grace sorriu, qualquer sinal das lágrimas do começo apagado.
“Eu tenho uma ideia bem simples, mas vai que, né?” Levantei uma sobrancelha esperando o complemento que não demorou a chegar. “Nós temos que manter o Beat vivo.”

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One response to “Éden – Capítulo 6

  1. “pelo contrário, parecia muito bem, obrigado.” GRITEI
    Olha, ainda bem que o próximo capítulo já está postado porque caso contrário eu estaria berrando loucamente PORQUE NÃO SE ACABA UM CAPÍTULO ASSIM FLW
    Grace e Misha, tô fazendo macumbas para vocês moças

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