Éden – Capítulo 7

Esqueci de postar ontem, mas como ninguém lê mesmo

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CAPÍTULO 7

No dia seguinte à conversa com Grace, comecei a colocar o plano em prática. Logo no horário do intervalo, sentei entre Mac e Bóris para um bate-papo. Eles eram dois anos mais velhos, mas morriam de medo de mim.
“Bom dia, Ó, meus irmãos.” Falei empolgada e cortês, na minha melhor imitação de Alex. Vi ambos engolir seco e dei risada, “Ora, não temais, estou aqui como amiga de bem, como sabeis claramente.”
“Falar desse jeito não ajuda muito, Micha.”
E, para minha surpresa, foi Ollie quem fez esse comentário.
“Ah, me deixa ser ameaçadora só uma vez, skatista!” resmunguei fazendo biquinho. Ele apenas sorriu e colocou sua bandeja em frente à minha; me virei para Bóris. “Mas me digam… numa escala de um a bibliotecário, o quão monótona está a vida dos senhores sem nosso amado Beat noite sim noite não?”
“Aí está, ela falou.” Mac resmungou desgostoso e me virei para ele.
“Oh, então vocês estavam só esperando eu vir cobrar? É assim que vocês funcionam?” não dava para esconder a decepção em minha voz daquela vez e percebi que isso atraiu a atenção deles. “Me deem um bom motivo para abandonar o Beat da noite para o dia e não vale falar que é porque o Dony não vai mais aparecer.”
Os dois abriram e fecharam a boca algumas vezes, tentando pensar em respostas inexistentes. Eu sabia. Eu disse. Rolei os olhos inconformada.
“Certo, vou mudar a pergunta. O que faz vocês pensarem que o Beat é composto apenas pelo meu primo? Porque até onde eu sei, não poderia existir Beat se não fossem todas as pessoas que o compõem. Sério. Aquele só seria um galpão super bacana que Dony e eu iríamos quando estivéssemos entediados.”
“Aquilo é um galpão super bacana que só vamos quando estamos entendiados.” Bóris falou como que constatando fatos.
“Mentira.” Rebati imediatamente. “The Beat é nosso lugar seguro, para sermos o que quisermos ser durante um período de tempo, para extravasar da maneira que quisermos.” Nem um dos dois parecia muito empolgado ainda. “Nós poderíamos fazer outra coisa. Dormir, por exemplo. Mas não. Tirávamos um pedaço do nosso tempo para encontrar amigos e sermos um pouco clandestinos. Não me venham com essa de proteção contra tédio agora.”
“Eu achei que o ponto do Beat fosse provar o quanto o governo está errado.” Mac falou desgostoso. Olhei para ele com um pouco de pena.
“Também. Quero dizer, o governo não está de todo errado, se querem minha opinião, e isso não significa que sou muito feliz com todas as decisões deles, não me entendam errado. A questão é: o Beat pode ser mais do que reuniões entre amigos, sim. Mas essencialmente, isso é o que ele realmente é – reuniões entre amigos.”
Olhei para Ollie procurando apoio, mas ele me encarava confuso, seu sanduíche pela metade. Bóris voltou a falar.
“Olha, eu vou ser sincero, okay? Eu não consigo ver o ponto em voltar para lá se o próprio Dony é a prova viva da inutilidade do que fazíamos.”
Aquilo realmente subiu nos meus nervos, precisei engolir seco e respirar fundo antes de responder.
“Inutilidade? Você acha que o Dony é algum tipo de prova?” Eu tenho a capacidade de ficar com um tom de voz mais obscuro quando fico nervosa, ao contrário de várias garotas, cuja voz vai ganhando um tom cada vez mais estridente. Bóris se encolheu conforme eu falava. “Eu vou te contar uma coisa, ele é. A prova de que esse governo está fazendo uma lavagem cerebral em todos aqueles que apresentam algum tipo de ameaça para o protocolo perfeito que eles seguem. Já esqueceu o que aconteceu com o Gígio? Ele era seu melhor amigo, estou errada? Você o reconhece, Bóris? Heim?”
Eu sabia que estava pegando pesado só de olhar para a expressão dos meninos que estavam sentados ao meu lado. Até Ollie, que sabia me desafiar como ninguém, parecia meio assustado. Mas eu não tinha mais tempo para meias palavras.
“Eu fiz uma pergunta, Bóris. Você reconhece seu bom e velho amigo Gígio depois que ele passou pela intervenção?”
Ele abaixou a cabeça e fez que não para suas batatas fritas, desanimado. Devo admitir, foi bem revigorante ver aquilo, como se fosse mais uma prova de que eu não estava sozinha.
“Tive uma conversinha com a Grace esses dias.” Falei. “Ela falou que Dony deixou um recado para ela antes que ele passasse pela intervenção, um recado de forma que ela lesse no momento certo, como aquele P.S.: Eu Te Amo, só que não era um bilhete de amor; era um pedido de socorro. Dony sabia que os danos nele seriam maiores e sabia que demoraria para conseguir voltar. Ele quer a ajuda de todos nós, meninos. Sério. Mas não vamos conseguir fazer isso separados.”
Eles ficaram sérios, tentando pensar. Mac falou.
“Mas Micha… como nós conseguiríamos fazer isso? Quero dizer…”
“Eu sei o que quer dizer. O cérebro dele provavelmente foi super danificado. Vocês não precisam se preocupar com isso, okay? Grace e eu daremos conta da parte interna, vocês ficam com o fator externo.” Me levantei, meio que encerrando o assunto, e fiz um gesto para Oliver.
“Como assim, Micha?” Mac perguntou, se virando na cadeira. Oliver se mexia para me acompanhar. Sorri.
“Ó, meus irmãos, os senhores têm a parte mais fácil da tarefa. Diga ao mundo que o Beat vive. Eles saberão o que fazer.” E fazendo uma reverência eu saí de lá com Ollie em meus calcanhares.

“Foi uma saída bem dramática, ‘eles saberão o que fazer’.” Ollie zombou e eu sorri. “Como você acha que eles vão saber?”
“Hoje é quarta.”
“E daí?”
“E daí que toda quinta, como todos os nossos irmãozinhos sabem, nós temos uma programação especial no Beat. Ou vai dizer que já esqueceu?”
“A luta.” Ele falou, num tom de ‘a ideia mais brilhante do mundo’. “Você é tipo um gênio do mal, Michelle.”
“Não sou dessas que gosta de levar o crédito sozinha, a ideia foi da Grace. Ela precisava de mim para persuadir o povo a voltar.”
Fui interrompida pelas mãos de Ollie me puxando para um vão entre os armários e, logo em seguida, pelos lábios dele nos meus, me fazendo sorrir contente. Agarrei sua camisa com uma das mãos e seus cabelos com a outra, trazendo-o para mais perto de mim, suas mãos em minhas costas, me segurando firme. Eu adorava o quanto ele é alto, só do jeito alto o suficiente para que eu possa encostar a cabeça com perfeição em seu ombro. Ainda adoro e continuarei adorando. Essa é uma coisa que a intervenção não ousaria apagar.
Nós poderíamos ficar assim para sempre sem a menor dificuldade, porque eles faziam a maior questão de nos apaixonarmos para valer, de nos entendermos puramente e conheçamos um ao outro, porque é isso que cria um relacionamento.

Você precisa entender que não é a ideia de amar tudo e todos que me incomoda. Meu problema com eles – o governo – é que tentam mudar quem você é. Eles não conseguem compreender que você pode amar incondicionalmente o universo ao mesmo tempo que sente curiosidade em saber sobre as novas tecnologias, ou como pode uma célula nervosa não se regenerar na maioria dos casos, enquanto que em casos específicos ela não vê o menor problema em se multiplicar. Meu problema é como eles acham inconcebível ser diferente.

“Então agora que o Dony está de fora, você é quem está ditando as ordens?” Ollie perguntou mal afastando o rosto dele do meu. Eu ri.
Ta brincando? Eu sempre ditei as ordens, gafanhoto.” Foi a vez dele rir. Completei. “E não vai achando que você será excluído, meu bem. Você tem um trabalho tão interno quanto o meu e o da Gray-Gray.”
E eu podia jurar que o vi engolir seco.

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One response to “Éden – Capítulo 7

  1. Meu shipper heart está gritando, excuse me MDS QUE LINDINHOS
    Ollie vendo onde amarrou o burro, boa sorte pra você moço.
    E MICHELLE GÊNIA DO MAL, SIM PFVR divinha

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