Éden – Capítulo 8

CAPÍTULO 8

Também não é como se não aprendêssemos o básico, como os princípios da divisão celular ou o método de Bhaskara, mas eles gostavam de dizer que a humanidade já tinha alcançado todos os níveis de conhecimento que seria capaz de alcançar. Eles dizem que nós cavamos tão fundo na busca por respostas para tudo – qual o melhor computador, o mais interessante ser vivo, a menor partícula do universo – que não restou nada para ser descoberto.
Esse é o motivo para não precisarmos saber de mais nada além disso, por isso aprendemos o que todos sabiam um século e meio atrás. Nada a mais, nada a menos. Porque a busca pelo conhecimento é desnecessária nos dias de hoje.
É mentira, é claro. Se não, não teríamos profissões como a medicina, que tem seus meios de pesquisa para deixar a intervenção cada vez mais adequada. Ou o governo, que acha que não sabemos o quanto eles adoram saber mais sobre um método para deixar a população cada vez mais robotizada.
Ainda bem que eu tinha o Ollie.

“Eu não tenho a menor ideia o que tudo isso quer dizer.” Ollie falou, apontando as imagens de raio-X penduradas na parede do escritório dos pais dele. Pensando bem, ele não seria de tanta ajuda. “Quer dizer, eu sei que são diferentes ângulos do cérebro de uma pessoa, mas…”
Rolei os olhos, me contendo para não rir da cara dele. Eu também não tinha muita ideia do que significava, então tirei fotos das imagens com meu celular para dar uma pesquisada depois. Aquele cérebro que apreciávamos era de uma garota do último ano que passaria pela intervenção na manhã seguinte, eram os gráficos de antes. Nós só estávamos olhando para eles porque eles já estavam lá quando chegamos; o plano era bisbilhotar os arquivos dos pais de Oliver e dar uma boa analisada em alguns antes e depois. Se tivéssemos sorte, poderíamos até dar uma olhada nos arquivos do Dony mesmo, ou do Gígio.
Ao invés disso, nós tivemos o cérebro completamente saudável de Marla Mendes, uma das garotas mais comuns da cidade, o que significava que o pai ou a mãe do Ollie estava trabalhando no caso dela e voltaria para o escritório em breve.
Okay, ninguém vai ficar chatiadinho com isso, nós só precisávamos dar umas olhadas nos arquivos para saber onde mais ou menos ficava o que e voltar outra hora, com mais tempo e bagagem.
O maior problema era que Ollie devia estar achando que estava com um bocado de sorte aquele dia, levando em consideração que eu nunca ia para a casa dele com tanta facilidade, e ele simplesmente não me deixava trabalhar, só ficava me distraindo do jeito mais eficiente que conhecia, que sabia surtir efeito.
Em menos tempo do que o aceitável, nós estávamos enroscados no sofá do escritório, Ollie usando de um interesse extravagante em subir minha saia jeans e gastando um bocado de beijos em meu pescoço. Não que eu estivesse reclamando, ele sabe fazer um bom uso das mãos e desabotoa botões com uma agilidade impressionante, mas, na época, eu não estava afim, muito menos pronta.
Também não é como se ele tentasse forçar alguma coisa comigo sempre que pudesse, mas aquele dia parecia fora de controle para nós dois, com nossos hormônios idiotas. E não estou dizendo que sou santa, também, porque isso não existe; é só que… eu sou cuidadosa com essas coisas. Minha mãe ficou grávida de mim aos dezessete anos, pouco antes de meu pai completar dezoito, e essas coisas mudam as vidas das pessoas. A intervenção dele até foi adiada para depois que eu nascesse, para ver se os sentimentos dele continuariam os mesmos.
Calhou que ele só conseguia gostar da minha mãe mais e mais e eu virei o tipo mais gracinha de presente de natal (mesmo tendo realmente nascido no início de janeiro), então tudo ficou bem. Mas nunca se sabe.

Naquela tarde, fomos salvos pelo gongo. Não só minha honra, mas também minhas dúvidas.
Pouco depois de Ollie encontrar um caminho interessante dentro da minha blusa, fomos interrompidos pela chegada – ou, melhor dizendo, volta – da Dra. Martin ao escritório, que nos interrompeu com um pigarro divertido.
Eu gostava dela porque ela era uma das mulheres que mais inspiravam sabedoria na cidade, sem aquele ar presunçoso e ganancioso. Ela era bem legal. Acho que é ela quem vai ficar com a minha intervenção e eu espero que seja.
“Não me lembro de ter autorizado nenhuma visita ao escritório, Oliver.” Ela falou num tom sério que lembrava meu pai. Oliver fez cara de quem não está muito arrependido de ter desobedecido. Interferi.
“A ideia foi minha, Dra. Martin.” Falei de baixo do Ollie. Ela me interrompeu.
“Oh, pelo amor de Deus, Micha, eu conheço você desde sempre, por que insiste em me chamar de um jeito tão formal?” Porque eu esquecia. “É Rafaela.” Sorri.
“Desculpe. Rafaela. Como eu dizia, nós estávamos passando e eu vi os raio-X…” tentei apontar para a outra parede, mas ficava meio difícil de me mexer com Ollie entre minhas pernas.
“Oliver, saia de cima da garota, francamente.” Rafa falou, rolando os olhos de um jeito um pouco mais mandão do que eu costumo fazer com ele e a muito contra-gosto ele se sentou.
Sentei-me também, uma perna por trás dele, a outra em seu colo e continuei a falar.
“O raio-X. Fiquei super interessada, sempre quis saber como essas coisas de intervenção funcionam, como o cérebro funciona e o que podemos fazer com ele e tudo mais; pedi para o Ollie me deixar dar uma olhada. Acho que pedi para a pessoa errada, talvez?”
Rafa sorriu. Ela é uma mulher alta e inteligente, sua pele escura é de um tom tão bonito que chega a ser hipnotizador. É sempre ela quem vai à escola para dar palestras sobre os benefícios da intervenção e coisas desse tipo. Não era difícil entender porquê, a mulher transpira confiança.
“Quer dizer que você tem interesse em medicina, Micha? Eu não sabia disso.”
Eu sorri, ganhando tempo. Falei olhando bem nos olhos dela.
“É, eu tenho. É meio difícil falar disso, sou a única da minha família que tem inclinação para essa área. Quero dizer, Artur desmaiaria se fizesse algum dano a uma borboleta, imagine se ele tivesse que abrir o crânio de alguém?” Oliver riu, porque ele era um dos especialistas em zuar meu primo. Fiz uma cara feia para ele, que parou imediatamente. “Mas sim, gosto de med.”
Era mentira. Por mais que eu saiba que med é provavelmente a única coisa que me manteria em constante aprendizado, o tempo para ter minha curiosidade de volta seria longo de mais. Eu não poderia esperar seis a dez anos para ter interesse nas coisas novamente. Mas, no momento, eu precisava passar por esse teatro, era minha melhor chance.
“O conhecimento pode ser tanto benção quanto maldição, Michelle.” Rafa falou, constatando fatos. Eu odeio esses tons condescendentes. “O que você acha que seria capaz de fazer com ele?”
“Dominar o mundo, é claro.” Brinquei e demorei só o suficiente para ver uma expressão meio preocupada no rosto dela antes de começar a rir. “Olha, não é esse o ponto, okay?” falei como quem descarta o assunto. “É como… acesso ao novo mundo, porque isso que a medicina é capaz de fazer – abrir portas. Eu sei que dizem que não existe mais nada que possamos descobrir, mas dependendo da profissão que eu escolher, seria como se eu tivesse fechando as portas para tudo que alguns de nós sabem sobre a humanidade.”
“Talvez você deva escolher filosofia, então.” Ollie, que estava emburrado porque medicina é um assunto que o mata de tédio, falou.
“Muita ladainha, pouca ação.” Respondi simplesmente e continuei. “E todo mundo sabe que meu negócio é colocar a mão na massa, não me faça piadas de padeiro.”
Oliver riu, mas o mais importante era que Rafaela estava rindo também, um brilho de triunfo em seus olhos.
“Sabe que você usou algumas palavras interessantes para definir sobre o que a medicina trata realmente? E é bom saber que alguém também tem interesse pela profissão da família, Oliver e Carolina mal querem ouvir a palavra.”
Carol é a irmã mais nova do Ollie, que é tão linda quanto ele. Dizem que ela odeia o sistema mais do que Dony e eu juntos, mas é difícil de dizer com certeza, porque hoje ela tem oito anos. Ela passa a maior parte do tempo rodando a cidade de bicicleta, enquanto Ollie cuida dela de seu skate.
“Talvez porque somos obrigados a ouvir sobre isso desde que nascemos.” Oliver rebateu. Ela fez uma careta.
“Não seja tão ácido, eu também ouvia sobre isso desde sempre.” Eu ouvi Oliver bufar alto para interferir mesmo (ele realmente odiava med) e Rafa mudou o foco. “Mas Micha, como eu disse, é bom saber que você gosta da área. Talvez eu posso até ser sua tutora, caso tenha interesse em começar a estudar algumas coisas mais profundamente.”
Meus olhos brilharam no que ela deve ter julgado como empolgação, mas que na verdade era alegria por chegar ao ponto que eu queria.
“Sério, Dra. Ma-Rafa? Não teria nenhum problema? Não quero dificultar a vida de ninguém com o Conselho.”
“Não, de jeito nenhum! Posso conversar com eles, você seria permitida no hospital para algumas aulas assistidas em menos de um mês, dependendo do seu progresso. E eu sei que você é uma garota muito inteligente.”
Dei de ombros.
“Eu sou.”
Nós sorrimos uma para a outra.
“Se for ficar para o jantar, posso separar algum material para você já começar a estudar, o que acha?”
“Acho genial.” Falei, segurando o braço de Oliver animada. Ele levantou uma sobrancelha, entendendo o que eu estava pensando. Rafa se direcionou para a mesa de mogno que ficava na sala.
“Ótimo!” ela falou, tão animada quanto eu. “Mas antes eu preciso terminar de analisar o caso dessa Marla, portanto acho melhor vocês transferirem suas atividades para o quarto do Oliver.” Nós dois fizemos uma coisa que não costumamos fazer com frequência – coramos – e nos levantamos para sair. Quando já estávamos à porta, Rafa chamou e jogou algo na direção de Ollie. “Cuidado antes de mais nada!” ela precisou gritar para as nossas costas, porque eu estava sendo empurrada corredor acima.
Eu olhei o que ele amassava nas mãos, envergonhado e comecei a rir, porque eram camisinhas.

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One response to “Éden – Capítulo 8

  1. Gritando no lvl hard PORQUE OLHA MEU SHIPPER HEART GENTE
    Mãe é mãe né, coisinha que não muda.
    E É PRA TRABALHAR E NÃO FICAR SE PEGANDO VOCÊS DOIS VIU tsc tsc hormônios tsc tsc

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