Amor às Avessas – Capítulo 5

Capítulo 5

Não passei anos e anos amargando em solidão. Eu tinha meu trunfo e ele morava na mesma república que o Miguel.

Murilo Amaral, do alto de seus dois metros de altura, levava a vida numa tranquilidade baiana inspiradora. Eis sua história: se não tivesse entrado na faculdade, estaria hoje na seleção masculina de basquete.
Ele é loiro, toca violão e faz aquele curso bom para os olhos chamado Engenharia Química. Não usa drogas, porque ele diz que atrapalha seu raciocínio, mas bebe uma cerveja de vez em quando. Na maioria do tempo, eu não conseguia levar a sério o que ele falava, porque o sotaque dele é tão engraçado. É por isso que só saquei que ele estava afim de mim quando o nível de toques estava bem elevado.
(não sei vocês, mas eu só encosto em alguém quando acho necessário – seja necessário para mim ou para o contexto do assunto – e Murilo gostava bastante de me tocar – sua mão em meu ombro, em minhas costas é uma lembrança bem clara do início)
Os sinais eram evidentes e aproveitei minha chance dois anos atrás numa chopada dos bixos que rolou na rep deles, na qual fui convidada a cantar com a banda do Murilo. E cara, se não rolar clima ao som de Sick Muse do Metric, então não vai rolar clima em momento algum.

Depois do pequeno show, nós dançamos juntos na sala e nos beijamos com gosto de cerveja e cheiro de maconha. Em pouco tempo, estávamos no quarto.
Para os outros, gosto de falar que estava meio bêbada e a lembrança daquela primeira noite é meio embaçada, mas a verdade é que eu estava bem sóbria e a definição que dou para o primeiro momento, quando tudo era fogo e suor é que foi ótimo.
Mas logo após isso, naquela mesma noite, a definição da nossa relação sexual era: fantástica.
Acho que quando se tem um bom instrumento de trabalho, a pessoa tende a fazer o serviço bem feito.

Numa noite em que acordamos com os gemidos da Lena, porque o quarto do Miguel era exatamente ao lado do Murilo, ele me puxou para perto e beijou meu pescoço.
“Que tal um lanche, Heloísa?”
Ele fazia isso, de me chamar de “Heloísa”, com todas as letras, todas as vezes. Nunca usou nenhum apelido.
“Acho uma ótima ideia.”
Vesti uma de suas enormes camisetas e fui para a sala, liguei a tv enquanto Murilo se aventurava na cozinha. Se Beber Não Case passava na HBO e comecei a assistir, porque não importa onde eu pegava a história, sempre era engraçado. Cerca de meia hora depois, Miguel apareceu na sala só de cuecas. A semi-nudez desavergonhada que rola em repúblicas nunca deixava de me surpreender. Eu achava o máximo que ele fosse meio fora de forma – só um pouquinho – e que isso não tivesse a menor importância para mim.
Mas meu gosto para homem é esquisito mesmo.
“Tava inspirado dessa vez?” perguntei.
“O quê?” ele pareceu confuso, então seu olhar clareou. “Ah!” ele riu. “Foi mal.”
“Tudo bem.”
“Não dá pra você reclamar muito, já que somos obrigados a ouvir Maroon 5.”
Comecei a rir.
“Não a climão que a voz de Adam Levine não derreta.” Falei, levantando a sobrancelha e ele ergueu as dele também.
“Se você diz.” Ele disse, encostando a cabeça no sofá e olhando para a tv. Assistimos um pouco do filme em silêncio antes dele voltar a falar. “Quando você e o Murilo vão assumir?”
“Assumir o quê?”
“Que são um casal.”
Sorri.
“Nós não somos.”
Foi a vez dele rir.
“Ah, não? Então porque vira e mexe sou acordado com o barulho da cama batendo na parede ou com vocês preparando café da manhã juntinhos…”
“Não significa muita coisa.”
Ele voltou a encarar a televisão e quando falou, foi mais baixo e menos brincalhão.
“Você sabe que ele gosta de você, não é?” fiquei quieta. “Mas ele acha que você gosta de outro.”
“É complicado.” Falei. “Mas eu gosto dele. Nós nos damos bem.”
Olhei para ele e ele olhou para mim.
“Descomplica, então, Helô?”
Eu não disse nada, mas acho que deu para ver em meus olhos que era complexo, que eu sabia que era diferente pro Murilo e que ele sabia como era para mim; que eu precisava de tempo.
Mas a verdade era que o meu tempo só seria útil se eu me afastasse o máximo possível de Miguel. A verdade era que eu tinha que ir embora dessa cidade, desse país e viver comigo mesma e deixar as coisas passarem sem influências.
A cabeça de Murilo apareceu na porta da sala.
“Suco, Heloísa?”
Não desviei os olhos do Miguel para responder que sim e logo ele estava de volta com dois lanches naturais enormes e uma caixinha de suco Del Valle de uva.
“Geladinho.” Falei quando peguei a caixa de suas mãos e abri o lacre. Ele comia tanto que a gente costumava beber direito mesmo. Ele sentou ao meu lado.
“Do jeito que você gosta.” É verdade e sorri para ele, recebendo um selinho em troca. “Ta servido, cara?” ele ofereceu um lanche e Miguel dispensou com um gesto.
“Falou com ela sobre a festa?” Miguel perguntou para o amigo.
“Falei. Ela topou. Não é, Heloísa?”
“Sempre.” respondi automaticamente.
“Vai ser a melhor banda de festa de noivado de todos os tempos.” Murilo falou empolgado.
Mordi meu lanche evitando a conversa.

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