Éden – Capítulo 9

We are back!

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CAPÍTULO 9

Eu só peguei Laranja Mecânica para reler três anos depois, aos quatorze. Eu estava arrumando meu quarto porque Anna teria que passar a dormir comigo – mamãe já passava da metade da gravidez do Breno. Meu irmão veio todo de surpresa, sem ninguém planejar, por isso nossa casa só tinha três quartos. Foi só dois anos atrás (depois do drama Dony) que meus pais resolveram reformar a casa para que cada filho tivesse seu espaço novamente.
De qualquer forma, eu estava fazendo essa grande limpeza no meu guarda-roupas, vendo o que eu manteria, o que ficaria para Anna e o que seria mandado embora quando encontrei o exemplar um bocado mais amassado do que anteriormente, por ter ficado apertado atrás das cobertas e jogos de tabuleiro.
Me lembrei do quanto o livro me intrigou, de como algumas coisas não fizeram o menor sentido quando o li e me julguei madura o suficiente naquele momento para tentar compreender suas palavras tão século XX.
Mesmo sabendo que aquela realidade de violência e loucura não existe mais em todo o mundo – todo o mundo, você consegue acreditar? – e que Burgess fazia referência ao presente e futuro, falava sobre uma sociedade distópica não tão distante da que ele vivia, eu nunca me senti tão compreendida quanto com aquelas palavras.
Era tão diferente. Mas era totalmente igual.

“Aparecer com esse livro na biblioteca seria uma ofensa para quem trabalha lá.” Grace comentou num tom brincalhão. Ela estava bem melhor, depois que nosso plano começou a surtir efeito.
Mal tinha passado uma semana e o Beat estava começando a reviver, a cada encontro, mais e mais pessoas apareciam. No terceiro – uma segunda – nós lançamos o desafio das quintas: era noite de batida. Foi legal dar umas porradas em gente de verdade ao invés de sacos de areia para variar.
Grace cruzou comigo no parque em frente ao clube enquanto eu esperava Ollie sair do treino de natação. Ele gostava de esportes, eu de pancadaria. Às vezes eu arriscava um basquete, além da bike, mas ele parou de entrar nas brigas do Beat porque o corpo dolorido estava atrapalhando seus treinos exigentes de campeão olímpico. Sorte dele, até que ele ficasse vinte centímetros mais alto que eu, nós nos enfrentávamos e ele sempre levava a pior.
Como eu tinha que ir para a casa dos Martin para ser ensinada após os treinos dele, eu estava aproveitando o tempo de espera para reler o livro, fazendo minhas próprias anotações dessa vez.
Era engraçado quando se fazia anotações sobre as anotações, vou contar para vocês. Como cinco gerações diferentes conhecendo, conversando e descobrindo cada vez mais o que o livro quer dizer. Sorri para Grace.
“Eu provavelmente seria queimada viva sem a chance de explicar que isso é obra dos meus antepassados.”
“É só não te pegarem com essa caneta na mão!” ela completou e lembrei que estava no meio de um comentário sobre o discurso do bêbado que preferia morrer a viver naquele mundo de violência gratuita; eu queria fazer um link com uma fala mais para frente do capelão da prisão. Será que Deus quer insensibilidade ou a escolha da verdade? Quero dizer, nós sucumbiríamos de qualquer forma – pelas mãos da violência ou pela interferência, por não podermos fazer nossas escolhas. A humanidade questionou as duas lojas e uma delas fechou.
Fazendo cara de culpada, marquei a página e enfiei a caneta na mochila, me sentando no banco e dando espaço para Grace sentar. Foi exatamente o que ela fez.
“Oh, Burgess.” Ela falou dando uma olhada na capa. “Nunca li nada dele, mas assisti esse filme. Bem perturbador.”
Por mais que Grace fosse essa garota que ouviu muito rap e dançou muito a dança das ruas, era difícil vê-la envolvida em algo realmente perigoso. Ela é a filha do prefeito, tem que ser exemplo; mas, mais que isso, ela é toda menina, de um jeito tão boneca que me faz lembrar da minha irmã. É claro que o comentário dela me fez rir, o que só fez com que ela sem mexesse desconfortável.
“Você não acha que é meio zuado que nos permitam ver esse tipo de coisa?”ela comentou, para minha surpresa. “Toda aquela violência e as ideias… quero dizer…” ela perdeu a linha de raciocínio, por isso interferi.
“Sim e não. Você sabe o que eles querem, Gray. Querem nos mostrar o quanto é horrível e sem coração, para que não aconteça novamente.”
Grace ficou em silêncio por alguns instantes antes de falar.
“É, mas esses personagens parecem bem fervorosos com suas ideologias, quase… evangelistas.”
Dei de ombros.
“Hitler também. E ele não fez muito bem para a sociedade.”
“É.” Ela disse num tom mais impaciente. “Isso que querem que a gente pense.”
Olhei para Grace e sorri.
“Exatamente.”

Eles querem que acreditemos que não somos quem queremos ser. Foi o que Dony escreveu em algum momento em seu diário. Anotei essa frase no meu link entre as falas do bêbado e do capelão.

A aproximação que Grace e eu passamos a usar com Dony era passivo-agressiva. Eu parei de pressioná-lo com a leitura do diário e fingi que estava mais é lidando com as minhas coisas. Ele tinha me dado esse monte de pistas que eu estava começando a compreender como utilizar e passei meu conhecimento para Gray. Foi assim que ela resolveu começar a deixar “presentes” para Dony: pedaços de memórias pré-intervenção que ela tinha usado para se recuperar entregue aos pedacinhos para ele. A maioria relacionada ao relacionamento que eles tinham.
Era dessa forma que Dony vinha recuperando a namorada durante aquele um mês que separou as intervenções de um e outro. Ele foi muito esperto, tinha preparado o caminho para nós duas; nós é que não tínhamos sido capazes de ler as nuances antes – justo nós, tão boas em compreender como o Éden funciona, falhando em nossa mais simples missão.
Não que fosse realmente simples.
Grace ainda não estava completamente recuperada. O que eu mais via era como ela tinha voltado a ouvir todos aqueles raps britânicos – segundo ela, o tipo mais sofisticado de rap (como se todos não falassem basicamente de dinheiro, mulheres e fama, como se alguém se importasse hoje em dia. Os rappers que fazem sucesso pelo mundo não têm mais que dezoito anos, muito menos seu público.) – e como ela sentia falta do relacionamento puro que tinha com meu primo, como se isso fosse a coisa mais importante do mundo. Mas os danos da intervenção ainda existiam, como um tique nervoso que dá as caras de vez em quando.
Eu achava estranho – meu primo e Grace – porque eu não tinha esse tipo de conexão com o Oliver. Provavelmente porque nós só tínhamos quinze anos e não sabíamos nada sobre a vida ainda. E, por mais que algumas vezes eu sentisse um pouco de inveja do nível de compreensão entre Dony e Gray, eu sabia que meu tempo iria chegar.
Porque tudo nessa vida, meus amigos, é sobre o tempo.

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