Éden – capítulo 11

CAPÍTULO 11

Comecei a reparar em algumas coisas, como a pequena marca do lado esquerdo na cabeça das pessoas. Geralmente o furo é feito na linha do coro cabeludo, porque assim não chama a atenção e seria escondida rapidamente.
Passei a reparar nisso depois de uma tarde que fiquei na escola lendo o livro de medicina que a mãe do Ollie tinha me emprestado para estudar. O livro dizia que o lobo frontal, que é o lado da frente e da esquerda do nosso cérebro, é responsável pelas nossas vontades, foco e senso de liderança. É onde somos afetados. A pequena mexida que eles fazem nos transforma em ovelhas, vivendo em bando e seguindo alguém; ao invés de produzirmos lã, produzimos amor.
Todo mundo sabe o que acontece com a ovelhinha diferente, não? A negra.
Ela recebe tratamento especial.

Geovani Braga, o Gígio, tinha interesse em tecnologia e armamento. Ele devorou todos os manuais de tecnologia armamentista que o galpão possui, mesmo que seja de dois séculos atrás, uma coisa meio retrógrada. Ele gostava de steampunk e computadores. Mais que tudo, ele gostava de inteligência. Gígio foi responsável por todos os aparelhos que tínhamos no galpão e pelo funcionamento deles no Beat durante os dois anos que esteve conosco.
Mas eu acho que o problema dele era gostar de tudo isso por ele mesmo – querer saber por ele mesmo. Esse tipo de egoísmo não é aprovado nos dias de hoje; ora, se você quer conhecer algo, qual a aplicação que esse conhecimento vai ter para a humanidade? E tudo bem que o Gígio conseguiu entrar no curso que ele queria na faculdade e está trabalhando com programação de qualquer forma, mas isso é tudo que ele faz, tudo que se tornou. É como se sua mente estivesse programada para tornar a tecnologia da intervenção melhor, mas não para interagir externamente de novo. Como se a vida dele estivesse resumida a amar tanto seu interesse por máquinas e desenvolvimento, que não sobrou muito espaço para o que ele fazia antes.
É como se a intervenção tivesse removido toda a diversão do saber. No fim das contas nós temos apenas aquele cara que costumávamos conhecer, e conforme cada um de nós for passando pela intervenção, o Gígio de antes será esquecido também.

Tive a oportunidade de dar uma olhada nos scans do cérebro do Gígio em um dos dias que passei na casa do Ollie estudando. Rafa estava me contando sobre as intervenções mais violentas, quando o sujeito é tão “quebrado” que eles meio que precisam reconstruí-lo. Ela disse “tem muita gente que não ama o suficiente, ou não entende direito como isso tudo funciona, por mais que nós convivamos nesse mundo desde que nascemos.”
É claro que, para as primeiras pessoas que precisaram esperar chegar aos dezoito anos para receber a intervenção, aqueles que ainda tinham uma memória do mundo de antes, era muito fácil se apegar a vida que tiveram, repleta de rancor e indiferença. Mas hoje em dia? Ninguém tem motivos para querer reviver aquilo tudo. O mundo está maravilhoso e pacífico. Nós nem mesmo temos lembranças sobre aquela época, nenhum dos nossos familiares está vivo para contar história. E se a intervenção fez o mundo ser tão melhor, porque tem quem se prenda aos atos de ódio e rebeldia?
Seria fácil concordar com a Rafa nesse ponto, se o que me tira do sério não fosse o fato que Gígio não fez porcaria nenhuma errada! Ele não brigava, não era um bullie, nunca fez mal à ninguém! Ele era apenas um cara que gostava de explorar e conhecer algo inocente como a tecnologia. Ninguém no mundo faz guerra, qual o problema em conhecer um pouco dos armamentos do exército? E se isso é tão repulsivo, para quê manter todo aquele material de estudo à disposição?
Gígio nunca fez nada de errado, mas teve seu cérebro reprogramado. Eu imagino o que vai acontecer comigo.

Descobri que eles mudam o caminho das terminações nervosas do nosso cérebro. Soava impossível algumas centenas de anos atrás poder mexer com o cérebro humano dessa forma, mas se tornou bem simples desde que essa história de “o amor resolve tudo” afunilou os objetivos da ciência. A intervenção interfere no seu modo de ver as coisas e pessoas; ela remove seus preconceitos e temores; ela injeta ânimo e paixão em suas veias; ela lhe ensina a amar incondicionalmente e inquestionavelmente; e se você não é do jeitinho que ela quer, ela lhe pega exatamente em suas imperfeições e faz você ser.
Puro, amoroso, inocente, renovado. Inofensivo.

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One response to “Éden – capítulo 11

  1. somewheeeeeeeeeeeere over the rainboooooooow não pergunte o motivo, mas eu lembrei dessa música.
    Votando na Michelle porque tem amor demais, mds não. Isso ainda vai dar merda.

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