Éden – Capítulo 14

CAPÍTULO 14

O pareamento acontece logo quando somos crianças. Sei disso porque meu avô, pai do meu pai, trabalhou por muito tempo pareando pessoas. Mesmo que não fosse permitido participar do pareamento final de algum familiar, até hoje reza a lenda de que vovô interferiu com os meus pais, que ele deu um jeito de colocar meu pai com a garota mais bonita da cidade. Dizem que Alan Pires nunca conseguiria conquistar uma garota como Mini Gomes, mas eu vejo como os dois são diariamente e vou dizer uma coisa: eles são perfeitos.
Até porque vovô me contou como essas coisas funcionam. Eles esperam as crianças terem sua sexualidade mais ou menos evidente antes de mais nada. É meio óbvio, se você for meio gay, dá para dizer logo no início. Depois disso, eles veem sua classe social (que hoje em dia consiste em o que sua família faz ao invés de quanto dinheiro você tem; ninguém mais é ridiculamente rico), determinando assim quem seria seu par ideal.
Boa parte de nossas vidas não sabemos com quem iremos casar. Isso não é tão importante quando temos sete anos. Mas, de alguma forma, crescemos nos aproximando daquele que foi escolhido para nós; nos conhecemos, ficamos amigos… se o pareamento estiver correto, em algum momento nos apaixonaríamos. Só então temos o segredinho revelado (apesar que sempre acabamos descobrindo de alguma forma, já que nossos pais sempre são informados e tudo mais).
Funciona incrivelmente bem.
Até porque não é como se alguma droga fosse inserida em nosso corpo ou fizessem algum tipo de cirurgia em nosso cérebro como a intervenção. Nós passamos pelos processos da vida, todas as suas fases. Não tem como falsificar um amor desses. Natural.

Desconfiei que meu par era o Ollie aos nove anos, quando meus pais convidaram ele e a família para almoçar em nossa casa num domingo. Nós nunca tínhamos uma família de médicos em casa e eu vivia ouvindo histórias do meu avô sobre casais que eram montados com um pareamento meio improvável, como tinha sido o dos meus pais. Eu desejei que fosse isso, porque Ollie era uma graça e fazia natação.
O problema naquele dia foi que tanto ele quanto eu éramos tímidos de mais para chegarmos perto um do outro. Dizíamos “oi” quando nos víamos, participávamos de brincadeiras lado a lado na escola, mas nunca mais do que isso.
Às vezes acho que ele ficava intimidado, porque sou prima do Dony e porque sou como sou – toda cabeleira vermelha, meio selvagem como a própria Merida da Disney. Vamos combinar, são duas coisas assustadoras.
Foi só depois daquela surra que ele levou de mim, numa das primeiras noites do Beat, que nós realmente nos aproximamos. Oliver se tornou meu melhor amigo, só perdendo para meu primo. Nós começamos a compartilhar muitas coisas, fazer planos, estudar juntos. Ele me ensinou a nadar como um profissional, eu o ensinei a dar porrada como Silvester Stalone. Ele ajudava minha mãe com a louça depois de jantar em casa, eu saía para bater bola com o pai dele quando jantava na casa dele. Sempre fomos trocados, inversos. Foi ele quem me fez tirar o cabelo da frente do rosto, fui eu quem lhe deu um beijo de boa sorte antes que ele caísse na piscina naquela Olimpíada que rolou em Buenos Aires, é na minha casa que a medalha de ouro que ele conseguiu naquele dia está guardada, é na casa dele que escondo meu diário.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s