And I think to myself… is it worthy?

É maio e eu estou no Rio de Janeiro desde 9 de fevereiro. Eu não achei que viria, mas eu vim. Com pouco dinheiro e muita coragem eu vim. Disposta a estudar e aprender e sem muito foco em fazer amigos. A universidade forma um universo complexo e não se pode saber muito bem o que esperar dela.

É maio e minha família em Campinas está passando dificuldades. Eu tinha um emprego que me garantiram o contrato assim que se passassem os meses de experiência. Faltavam 18 dias para eu ser funcionária oficialmente e eu larguei tudo porque o Governo me mandou uma mensagem de texto dizendo que eu tinha sido aprovada na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Eu queria passar, mas nunca, por um segundo sequer, achei que passaria (e fiz um bom trabalho ao fingir confiança no meu desempenho no vestibular). Fui pega de surpresa e meus pais (“Tem certeza que não quer ir pra São Carlos?” “Tenho.”) apoiaram, mas está todo mundo duro.

É maio e domingo é dia das mães e eu tenho R$0,25 na minha conta, porque não importa que eu tenha solicitado bolsas (uma delas com o irônico nome de “Acesso e permanência”) e esperado pela boa vontade dos funcionários – em greve, sempre em greve – se posicionarem, não importa que eu tenha largado o emprego, a cidade e o estado onde nasci, a família para estar aqui: não recebi um centavo do auxílio que preciso tanto.

É maio e três coisas me salvaram: a. minha família, em Campinas, de cintos apertados me mandando o que pode quando pode; não é muito, mas dá pra pagar as inúmeras cópias que precisamos tirar toda semana, o bandejão dos três dias que preciso ficar pras aulas da tarde. Nem sempre. Mas ajuda por boa parte do mês. b. a única coisa decente aplicada na cidade do Rio de Janeiro nesse primeiro semestre – o passe livre universitário. Sem ele, eu já teria voltado para Campinas na metade de março. Como você quer, Governo Federal, que eu pague de 6 a 12 reais todos os dias, coma, compre o material exigido em aula, tendo R$200,00 por mês? Definitivamente teria durado duas semanas. c. a família, cuja situação financeira é bem parecida com a da minha, com seus altos e baixos aqui e ali, que me acolheu sem que eu tivesse certeza se merecia (e ainda não tenho).

É maio e a casa onde moro atualmente era para ser meu lar por apenas dois meses, porque eu conheço universidades públicas e os alunos que precisam conseguem auxílio rápido e moradia e alimentação e transporte, então eu iria morar em algum outro lugar, mas eu ainda estou aqui porque eu nem mesmo sei se será possível sair o resultado do auxílio moradia que pedi em fevereiro. E está me matando que seja maio e eles já fizeram tanto por mim e eu não possa dar NADA em troca, porque tem R$0,25 na minha conta e eu tive que perder todas as aulas da tarde essa semana por não ter dinheiro nem para bandejar. (I’m sorry, Tha-Tha, I’m so sorry.)

É maio e eu já sabia o que é estar na universidade pública. Meus anos na UNICAMP foram suficientes para desmistificar qualquer deslumbramento. Esqueça o quão inteligente você era entre os colegas da escola pública, aqui é trabalho de verdade, estudo de verdade. Aqui a vida é dura. Mas olha, a universidade quer o seu melhor, e se tá doendo no bolso, vem aqui, vamos conversar. Três anos de UNICAMP e com todos os seus defeitos, mesmo eu morando ali do lado, eles me ouviam quando eu contava que não estava dando e me arranjavam alguma coisa – qualquer coisa (panfletagem na saída do bandejão, na maioria das vezes) – para me ajudar.

É maio, a UFRJ está de greve, tem R$0,25 na minha conta e eu estou pensando comigo porque tem tanta gente que se orgulha de estudar na Federal. Eu já experienciei dois cursos melhores do Brasil (a biologia da Unicamp e agora a Letras da UFRJ) e não importa. Não importa que o curso seja perfeito, que eu tenha professores incríveis e que meu conhecimento esteja se expandindo. Não importa que tenha todo o prestígio acadêmico que tem, sabe por quê? Porque a impressão boa nunca fica. Eu larguei absolutamente tudo para estar aqui e não recebi nada em troca. Nem um “não”. As reivindicações dos alunos são ignoradas, as reivindicações dos funcionários são ignoradas, o bloco F do prédio de Letras fede tanto quanto o Tietê há ANOS e NINGUÉM resolve os problemas.

É maio e graças a Deus eu tenho minha família e o bilhete único universitário e uma família que cedeu um espaço da pequena casa alugada onde eles moram na zona norte. Eu não tiro xerox e não como na universidade, mas ainda posso voltar para casa e encontrar algo para comer, internet para fazer trabalhos e um lugar para dormir. Mas e os outros alunos que vieram de outros lugares? Que também largaram tudo e não tiveram a oportunidade de encontrar onde ficar? Como se paga aluguel? Como se locomove? Não, né? Não sai do lugar, não come, não estuda. Porque a universidade não se importa e porque o Governo Federal se importa menos ainda.

É maio e o estudo que eu esperei ter estou tendo, os amigos que não esperei fazer estou fazendo, mas as oportunidades que eu tinha fé que teria não estou tendo. Tudo de bom que tem acontecido contrabalanceia o ruim? A resposta é um fácil não. Mais coisa ruim do que boa não rende diploma para ninguém. Eu não posso ficar nessa casa por 4 anos, eu não deveria nem estar aqui hoje. E se, Deus do céu, eu pelo menos soubesse se minha bolsa moradia foi aprovada ou não, eu teria alguma ideia do que fazer. (Should I stay or should I go?). Mas não.

É maio e quando eu penso em ir pra universidade eu penso em ir para casa; eu penso em Campinas e na UNICAMP e começo a reconsiderar se devo tentar voltar para lá, porque eu prefiro o sofrimento do estudar sem muito auxílio do professor do que o sofrimento de não saber se o dinheiro vai dar até o final do mês ou se dessa vez vai dar pra ajudar um pouco nas contas da casa – aqui e lá -, de saber que o que eu estou sofrendo é compartilhado com todos aqueles diretamente ligados a mim e esse sofrimento me mata.

É maio, é meu primeiro ano e eu já estou tão cheia de tanta coisa errada e pela metade e mal feita. (Era assim que você se sentia, mãe?)

É maio e graças à Copa só temos mais um mês de aulas. Minha amiga se pergunta se, quando ela entrar na metade do ano, a greve já vai ter terminado. E eu penso comigo se vale a pena voltar em agosto.

UPDATE: A bolsa de auxílio e permanência caiu no dia seguinte à publicação desse texto e pude ser o presente surpresa da minha mãe no dia das mães, pude dar um pouco de dinheiro para a família que tem me hospedado. Não é muito, mas pelo menos ter caído o dinheiro acumulado salvou o mês. Mas o que importa, que é a moradia, nada.

UPDATE 2: Mandei outro email para a Divisão de Apoio ao estudante, contando inclusive sobre a existência desse texto e recebi uma resposta interessante (:

Essa é a carta:

20 May
to dae

Boa noite, Divisão de “apoio” ao estudante.
A última vez que entrei em contato com vocês foi em 10 de abril e recebi uma resposta surpreendentemente rápida (11 de abril), embora extremamente seca.
Sou aluna de Letras Port/Ing, sou de Campinas/SP e estou morando de favor pelo dobro de tempo que deveria, graças à demora na divulgação do resultado do benefício moradia. Tivesse o resultado saído na data prevista, mesmo com sua greve anual, eu talvez não estivesse mais no Rio de Janeiro ou talvez estaria em outra casa/apartamento, pagando aluguel com o dinheiro proveniente do apoio do governo aos seus universitários. Tivesse o resultado saído, eu não estaria abusando da hospitalidade de ninguém. Mas me segurei à essa esperaça – todos os dias, TODOS os dias – de que abriria o site do Superest e veria o resultado do benefício e resolveria minha vida.
Hoje é 20 de maio. O resultado era para ter saído em 28 de março. Faltam três semanas para o término do semestre, faltam três semanas para eu decidir se volto em agosto.
Eu dependo única e exclusivamente do resultado. Eu preciso do resultado. Porque graduar num curso integral com R$400,00 não é possível, simplesmente não é.
Temo pelas pessoas que estão na mesma situação que eu, mas é final de maio e, se elas não tiveram onde ficar de graça como eu tive, se elas tiveram que pagar aluguel e passagem e comer e tirar xerox e comprar livros, mesmo com sua bolsa de auxílio e permanência, sabe onde eles estão? De volta em suas casas.
Enquanto isso, enquanto eu espero o resultado sair – e que ele saia antes de terminar o prazo de inscrição de disciplinas do segundo semestre – este texto tem circulado pela internet, okay?
[LINK]

Obrigada, de nada.

Essa é a resposta:

22 May
to me, Ericksson

Na próxima semana deveremos divulgar a nova data do processo seletivo do Benefício Moradia, na página da Superest.

Entretanto, cabe ressaltar que, infelizmente este não será suficiente para resolvermos os problemas de todos os alunos que necessitam de moradia. Tivemos 422 alunos inscritos que concorrerão à 50 vagas (45 para o Rio e 5 para Macaé).

Estamos fazendo o possível para que esse resultado ocorra antes da inscrição em disciplinas de forma que, os que não forem selecionados, possam se reorganizar.

Att

Esse é o site em que teoricamente era pra ter saído o resultado – http://www.superest.ufrj.br/ – e ele diz:

RESULTADO DA SELEÇÃO PARA A BOLSA AUXÍLIO E BENEFÍCIO MORADIA – 2014-1

O resultado da seleção para a Bolsa Auxílio, previsto para esta data, não será publicado.
Informaremos, em breve, uma nova data de resultado para o processo seletivo da Bolsa Auxílio e do Benefício Moradia.
Fiquem atentos às próximas informações!!

DAE, 23/05/2014

Informação sobre o resultado da seleção para Benefício Moradia e pagamento das bolsas de assistência estudantil

Informamos que, em razão da greve de servidores técnico-administrativos, não será publicado o resultado da seleção do Benefício Moradia previsto para hoje. Tão logo seja possível será divulgada uma nova data.
Em relação ao pagamento das bolsas de assistência estudantil (Bolsa Auxílio, Benefício Moradia e Bolsa de Acesso e Permanência), o mesmo ocorrerá no prazo habitual (de 1 a 10 de cada mês), sem prejuízo para os alunos bolsistas.

DAE, 28/03/14

Então me perdoem se eu estiver um pouco confusa e revoltada, porque minha resposta foi a seguinte:

25 May
to simone

Você ta de brincadeira comigo? Eu to falando que NEM O RESULTADO EU SEI e você vem me falar de datas do próximo processo? Você sabe ler?
Em que momento o resultado do primeiro semestre foi divulgado, que eu não sei? Que ninguém me disse? Eu to desde que entreguei os documentos – EM FEVEREIRO -, desde a semana que a greve começou, que foi a semana em que teoricamente o resultado sairia – VINTE E OITO DE MARÇO – esperando esse resultado, olhando no site do superest onde, teoricamente, é pro resultado ser divulgado, e vendo ZERO publicações novas e você vem me falar de próximo processo seletivo?
Sinceramente, parece palhaçada. Que lugar mais desorganizado.

UPDATE 3: Quem disse que grosseria não resolve as coisas? (mais ou menos)

26 May
to Roselia, Rosa, me, Ericksson

Raabe

Encaminho seu e-mail ao Superintendente Geral de Políticas Estudantis, para as providências cabíveis, dado o teor do mesmo.

Att

26 May
to simone, Ericksson, Roselia, Rosa

Obrigada. Quem sabe assim alguém tem uma resposta útil pra resolver o problema, não é mesmo?

Me surpreenda, UFRJ.

UPDATE 4: #taserto

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UPDATE 4: Acabou. Olá Campinas, eu estou voltando.

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3 responses to “And I think to myself… is it worthy?

  1. Acabei de “desmistificar qualquer deslumbramento”. Moro em Brasília e morro de vontade de ir para a Federal do Goiás estudar artes cênicas, estou me preparando pro ENEM e tudo mais… Agora depois de ler isso, vou repensar bastante. Obrigada por compartilhar isso

    • Eu não sei como estão as universidades do centro-oeste, mas sei que as federais do Rio estão capengando na hora de pagar seus funcionários e alunos. Uma amiga da Rural disse estar passando pelo mesmo problema. Também não sei se dá pra aplicar nas federais de SP, só sei que a UFSCar é linda e organizada, nunca vi ninguém reclamando dela ou da UNIFESP. Que a UnB vive dando treta é uma verdade, mas realmente, sobre o centro-oeste não tenho como informar com certeza. Não desista da faculdade.
      Eu sei que tenho boas opções, em outros cursos, perto de casa, por isso considerar voltar dá trabalho, mas até que faz sentido. Acho que é tudo uma questão de experienciar na pele. Dificuldades acontecerão em qualquer lugar, sejam as dificuldades que forem. Tente o semestre e coloque na balança se vale o esforço. Às vezes vale.

    • Estudo na UnB, Thaiane, mas não faço a mínima ideia do estado do programa de assistência estudantil da UFG. Morei em Goiás a vida toda, aliás, numa cidade que também tem um campus da UFG, Catalão, mas sinceramente nunca sei. Tenho uma amiga que faz Direito no campus de Goiás Velho e que pode te dizer alguma coisa mais concreta.
      Só que, sobre a UnB, é tudo cheio de treta. Semana que vem estaremos tendo a eleição para a nova chapa do DCE e a atual vigente, a Aliança pela Liberdade (não sei que liberdade é essa que se recusa a se engajar na luta dos alunos), tem o maior rabo preso com a reitoria. Semestre passado tivemos muitas manifestações contra a reitoria por uma assistência melhor e que possibilite os alunos terem uma vida saudável por esses 4 anos que, sim, devem ser os melhores de nossas vidas. Entenda, a UnB é a universidade mais rica do país, mas ninguém sabe pra onde vai todo esse dinheiro. A assistência daqui é precária, os alunos mal sobrevivem e não têm o mínimo apoio tanto da reitoria quanto do DCE e, enquanto isso, o nosso querido reitor Ivan Camargo quer colocar placas de LED!
      PLACAS DE LED NUMA UNIVERSIDADE QUE MAL TEM LUZ E UMA ASSISTÊNCIA QUE SÓ NOS RESTA REZAR PRA QUE OS ALUNOS QUE PRECISAM DELA TENHAM O QUE COMER NO DIA SEGUINTE.
      Prioridades cadê, né, pessoal???
      Enfim, ano passado a moradia dos alunos ali na Colina passou por uma reforma. Os alunos foram desapropriados e tiveram, por quase dois meses, que “morar” numa salinha do ICC em situações revoltantes, sem comida, aparelhos para conservá-la e nem fichas pro RU. O CASSIS chegou a invadir a reitoria depois de o senhor Camargo chamar a polícia militar (A POLÍCIA MILITAR GENTE QUE) pra tirar os alunos da salinha do ICC.
      É isso que a gente ganha por estudar numa universidade federal e esperar pelo menos o apoio que é direito nosso.
      A gente ganha polícia militar na universidade, coisa que é simplesmente abominável depois de tanta coisa que sofremos durante a ditadura.
      Mas sério, Thaiane (e isso serve pra By também), não desistam da faculdade. A gente vai mesmo esperando que vá ser um sonho, mas não é. É difícil, a gente é abusado todo dia, mas não desistam. Eu, particularmente, não precisei da assistência estudantil, pois meus pais conseguem me sustentar aqui em Brasília, mas a UnB tem outros diversos problemas que atingem a todos e o DCE parece não se importar. Quando se importa, surge com soluções que mais se tornam problemas do que qualquer coisa. (é uma vergonha até o DCE ter o nome do Honestino Guimarães e se abster de nossas lutas. Sinceramente, Aliança pela Liberdade nunca mais)
      Eu não consigo imaginar o que é sentir o que você sente, By, mas aproveite tudo isso e se engaje numa luta que pode, sim, mudar tudo. Vá bater na cara do DCE, vá pra reitoria brigar, se junte com o movimento estudantil. É isso que faz a faculdade valer mais a pena do que todo o conhecimento que você vai juntar por 4 anos. Meu professor semana passada disse uma coisa que me marcou realmente: você só pode mudar algo, lutar por algo, quando estiver no meio de todos os problemas.

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