Construindo Sara

Construindo Sara

Pouco mais de um ano depois de Lucas & Carol, é hora de focar em Sara.

Uma das melhores amigas de Carol, a carioca da região dos lagos se mudou para São Paulo para fazer faculdade e até que os estudos estão bem, mas o que não está bem é seu coração. Todo o processo de mudança para uma cidade completamente nova foi só o primeiro passo para Sara reavaliar suas decisões e identificar quais pontos da construção que é sua vida precisam ser repensados.

O único problema é que fica meio difícil de manter o foco tendo pouco dinheiro, aproximadamente vinte e três séries para assistir e um outro carioca muito gato (embora meio babaca, shhhh) no radar.

—————

EU VOLTEI!

Existem algumas pessoas que nos inspiram: a sermos melhores, a buscarmos nossos sonhos com mais afinco ou simplesmente tentar um pouco mais. Nem todas elas são famosas. Minha mãe me inspira um bocado, embora tenhamos nossas diferenças. Meu pai e meu irmão. Quero dizer, todo mundo tem um familiar que simplesmente faz você perseverar.

E então vem os amigos. E os amigos, meus caros, são parte de um grande processo de autoconhecimento e autoaceitação. Se Fulano me aguenta acima de todos os meus defeitos, eu deveria me aguentar também. Estão vendo? É esse tipo de inspiração que eles geram.

Quando eu escrevi Lucas & Carol, discretamente colocando quatro amigas da blogueira no plano de fundo – todas elas um reflexo de amigas minhas -, eu nunca pensei que iria Sarah Dessen-zar essa parada de escrita. Mas eu Sarah Dessen-zei.

Hoje é 5 de março, aniversário da minha amiga Sammy, que inspirou a menina Sara aqui. Que inspirou a Raabe aqui. Eu queria ter escrito tudo de uma vez, mas Construindo Sara ficou tão denso que não deu. Eu pretendo postar regularmente, mas não posso prometer nada. Minha única promessa (pessoal, mas uma promessa mesmo assim) é terminar de escrever esse ano, porque afinal não é pra história ficar tão longa assim.

Ela vai ter um passo diferente da L&C, com capítulos variando em tamanho e não todos tão curtos, mas eu espero de coração que vocês aproveitem (e comentem. um escritor vive de comentários, pfvr ._.). Inclusive não se preocupem, porque eu sou a rainha das referências e provavelmente teremos várias referências à L&C e ao ponto em que os personagens de lá se encontram em outubro de 2014.

Sammy, hoje você fica mais velhinha. Sei que a sua jornada passa por caminhos diferentes da Sara, mas a construção pode ser muito semelhante. Nós todas estamos tentando nos conhecer e está tudo bem não saber exatamente o que faz de você você aos vinte. O que importa é que estamos aprendendo – e você está aprendendo e eu sou sua amiga e morro de amores por você -, colocando tijolo acima de tijolo, montando algo em constante mudança e crescimento. Pode ser a reforma mais longa da nossa vida, mas no fim das contas seremos sempre vizinhos (mesmo que você esteja aí e eu aqui. a vizinhança se estabelece no coração). São esses os meus desejos de feliz aniversário.

Espero que gostem de Construindo Sara.

i.

Quando Patrícia chegou em casa depois de quatro horas de História do Direito no Brasil e uma fila inacreditável no Burger King, além da uma hora e meia que passou tentando pegar metrô no Brás, ela encontrou Sara deitada no chão de barriga para baixo, os joelhos dobrados debaixo de si, com olhar desamparado e olhos cheios de lágrima, uma panela com uma colher apontando para cima a alguns centímetros de sua cabeça.

Essa cena era tão comum que Pati nem se preocupava mais.

– O que aconteceu dessa vez, Sara? – ela perguntou cheia de humor e a amiga fez o melhor dar de ombros que conseguia de seu lugar no chão.

– Acabei de terminar Luther e agora… – ela fungou e lágrimas rolaram de seus olhos para o chão. Sem nem mesmo olhar, Sara estendeu a mão para a panela e pegou a colher. O conteúdo era brigadeiro. – só Deus sabe quando terei Idris Elba em minha vida novamente.

Sara colocou a colher na boca enquanto Patrícia só concordou com a cabeça. Era em momentos como esse que ela se questionava se devia deixar a amiga sozinha e por mais que elas tivessem crescido juntas e ela soubesse que Sara sempre ficaria bem… duvidar era inevitável.

– E aí? – continuou, se encostando no batente da porta. – Decidiu o que vai fazer com sua semana livre?

Sem se mexer, Sara disse algo que soou mais ou menos com “Zo óbri, ro micá rurraqui.”

– Quê?

E só depois disso que ela tirou a colher da boca, fungou e respirou fundo.

– To pobre, vou ficar por aqui. Quando você vai?

Patrícia fez um bico e olhou para o corredor, ganhando tempo. Ela definitivamente não gostava de deixar Sara sozinha, especialmente em semanas como essa. Mas a viagem era cara e o dinheiro estava curto para as duas.

– Na verdade, vou só tomar um banho e chamar um táxi. Minhas coisas já estão arrumadas.

– Que legal. – Sara disse com um suspiro. – Hey, manda um beijo pra minha mãe por mim?

Pati sorriu, dando um passo para o corredor.

– Pode deixar, eu mando.

A pobreza não era o único motivo para Sara ficar em São Paulo. Diferente de Cabo Frio, ela amava aquela cidade – amava o caos, a universidade problemática, o metrô lotado, mas rápido, amava tudo que era o contrário da cidade onde nasceu – e todo mundo sabia. Ter uma desculpa para ficar não causava muito problema.

Por isso, todos os dias ela contava mentalmente os por fazer. Estudar para as semanas com provas que estavam por vir, claro. Terminar um roteiro de documentário (sobre procrastinação universitária, olha a ironia). Também tinha a bienal de arte que ela estava louca para ver, mas ainda não tinha arranjado tempo. Tinha o jantar no Outback que Helena vinha tentando obriga-la a ir, já que ela nunca comera no restaurante. E tinha o Ricardo.

Ricardo. Já dava para imaginar que ele era meio babaca só pelo nome. Sara só o conheceu graças à Pati: ele estava na turma dela e os dois eram os únicos cariocas de 2014. Ele era poucos centímetros mais alto que elas, tinha aquela cor de moreno da zona sul e postura de menino rico. Ele também era muito gato. Gato o suficiente para que Sara fingisse que as baboseiras que saiam da boca dele não eram tão ruins assim.

(sabe como é, Sara é uma mulher esperta, inteligente, feminista, disposta a entrar na porrada por causa de politica, desigualdade e preconceito. E é evidente que Rick – cis, hetero, cheio da grana – poderia naturalmente ir contra metade dos seus princípios. Mas ele era gato e Sara merecia um pouco de amor masculino.)

(sabe?)

Então ela tinha feito uns cálculos e estava quase pronta para enfrentar dez horas de ônibus até o marasmo de Cabo Frio quando Ricardo olhou para ela durante uma apresentação de música que estava rolando perto do restaurante universitário, se aproximou e disse:

– A gente vai beber todas nesse feriado, heim?

A situação era tão inusitada (você não quer que o cérebro de uma garota esteja funcionando bem numa segunda feira logo após o primeiro turno das eleições) que primeiro ela pensou que nunca achou que ele fosse do tipo de pessoa que almoçaria em restaurantes universitários, para então se questionar se ele tinha um apartamento no Malibu, mas

– Você não vai escapar da Augusta dessa vez.

Depois de dois segundo de loading, Sara murmurou um “Oh”. A Augusta, claro. Porque ele ainda se referia àquela vez em que as havia convencido a ir até a famosa rua paulistana para tomar um chopp. Após uma hora na fila para entrar num bar escolhido pelo próprio Rick, Pati e Sara descobriram o valor da entrada e deram meia volta. Ele não tinha avisado que precisava pagar para entrar. Ricardo resmungou e choramingou, mas em momento algum se ofereceu para pagar a entrada delas (ele poderia, sem a menor dor), mesmo depois de elas contarem que o preço era metade da quantia que tinham reservado para os gastos da semana.

Naquela noite, ele entrou no bar sozinho e Sara e Pati voltaram à pés para a Paulista, discutindo se deveriam tentar ir para algum outro lugar. Como turistas que eram, em plenas oito da noite elas deram uma parada no MASP para ver a apresentação de um grupo que parecia ser colombiano e já estavam lá há meia hora quando um casal parou atrás delas.

– Vocês estão com dinheiro e celular bem escondidos, né? – a garota perguntou do nada, dando um susto nas duas amigas. – Desculpa. É só que vocês estão muito distraídas. Não dá pra ser distraída aqui, isso é São Paulo.

Patrícia apenas concordou com um aceno de cabeça, mas Sara deu risada e olhou para trás, para os dois. A garota era branquinha feito porcelana, com cabelos pretos na altura dos ombros e pouca coisa mais baixa que elas enquanto o cara era alto, usava óculos de aro preto e parecia ter saído de algum show da CW, como o sidekick nerd. O ar ao redor deles exalava riqueza, mas aquela era São Paulo: a casa onde tudo se mistura. Talvez eles fossem apenas hipsters.

– Relaxa, a gente é do Rio. – Sara disse simplesmente com uma piscadela e Patrícia a repreendeu.

– É, da região dos lagos. Sabemos muito sobre cidade grande.

– Hey! – a primeira ralhou, crispando os olhos verdes para a amiga. – Sou eu quem faz os comentários sarcásticos nessa dupla, Pati. Eu sou Sherlock, você é… o inspetor.

Nesse momento, o casal que as abordara riu.

Sassy. – a branquelinha falou e após um olhar indignado de Sara e Pati ela se virou para o cara que estava com ela – Será que as meninas do Rio têm medo de estranhos?

Poderia ter soado super ameaçador, mas eles eram dois nerds como a própria Sara. E, para dizer a verdade, a carioca tinha passado tempo suficiente assistindo as primeiras temporadas de Dexter (e Sherlock e Blacklist) para saber como age um sociopata.

Ficaram sabendo, então, que os dois eram Helena e Theo – dois nomes sem apelidos. Helena tinha dezenove anos e estudava arquitetura não muito longe de Sara na USP mesmo. O já formado Theo, com seus vinte e três anos, havia sido professor de alemão de Helena quando ainda estava na faculdade. Eles eram muito amigos e, embora esbanjassem riqueza, pegaram com Sara e Pati dois ônibus e um metrô para chegar numa festinha de república que só começaria a bombar dali duas horas.

Sara não acreditava em amor instantâneo – como acontecem em todos os YAs voltados para adolescentes apaixonadas e fáceis de impressionar -, mas tinha muita fé na amizade instantânea. Amizade instantânea, para ela, era que nem miojo frio: acontecia antes que se pudesse evitar e depois não tinha como separar os macarrões embaraçados. Ela e Pati estavam eternamente ligadas à Theo e Helena.

A questão era que, falando do que interessa, recentemente, Ricardo vinha cobrando bastante esse rolé na Augusta e se ele estava disposto a ficar em Sampa – com calor, racionamento e falta de chuva – só para fazer o rolé acontecer… quem era Sara para dizer não?

Naquela tarde após o almoço salgado de mais do RU, ouvindo covers em estilo MPB dos funks ostentação da zona oeste, Sara definitivamente soube que aquela semana seria de progresso.

 …

A campainha do apartamento tocou por dois motivos: o táxi de Pati tinha chegado, assim como Theo que, sendo conhecido, tinha aval para subir direto e as surpreendeu ao abrir a porta.

– Tem um táxi esperando a Srta. Patrici-UAU! – ele interrompeu o anúncio ao ver o tamanho da mala que esperava no corredor do pequeno apartamento. – Você está de mudança?

Pati, que estava para lá e para cá adicionando itens de última hora, parou e Sara sorriu de seu lugar ao lado da porta de seu quarto.

– São coisas que me pediram para levar. – explicou, empurrando para o lugar os óculos que tentavam escapar de seu rosto.

– Muamba! – Theo acusou em tom brincalhão e Patrícia corou.

– Não zua que a viagem vai ser dura!

Ela começou a arrastar a mala para fora, mas Theo prontamente tomou o trabalho para si.

– Deixa que eu te ajudo, vai chamar o elevador. E você – ele continuou, se virando para Sara. – tire essa cara de quem acabou de ver o Doctor se despedir da Rose e se arrume que nós vamos sair.

– Eu não tenho dinheiro. – Sara o relembrou, seguindo os dois até o elevador.

– Eu sei. É por isso que o rolé é 0800. – ela levantou uma sobrancelha esperando que ele continuasse. – Perto da casa da Helena vai rolar um cinema ao ar livre e hoje tem Monty Python.

Como que para enfatizar, o elevador apitou anunciando sua chegada, ignorando a cara de completo choque e empolgação de Sara que, assim que viu a porta se fechar, correu para dentro.

Ela se trocou em tempo record e antes mesmo que Pati tivesse entrado no táxi ela já tinha descido.

– Theo… – ela ainda ouviu Pati protestar quando se aproximava e ele levantou os braços como que se rendendo.

– Já está pago, não quero mais saber desse papo. E não venha me dizer que não precisava! – acrescentou quando ela abriu a boca para protestar de novo. Patrícia já estava dentro do carro e ele fechou a porta. O vidro estava abaixado. – Quando precisar de ajuda pra qualquer coisa, pode me chamar, viu?

Pati sorriu e apertou a mão de Theo, que estava apoiada na janela.

– Boa viagem. – ele desejou e ela murmurou um agradecimento antes de acenar para Sara, que fez o mesmo.

Foi só quando o táxi virou a esquina que Sara resolveu falar.

– Uau! Olha todos esses coraçõeszinhos ofensivamente flutuando acima da sua cabeça!

Theo se virou para ela com a sua melhor cara de olha-aqui-queridinha.

– Cala a boca.

– Devo eu cantar alguma canção cafona da Mariah Carey em seus anos 90?

– Sara.

– Theo.

Ele suspirou balançando a cabeça em negativa e se aproximou dela.

– Está pronta?

– Não, eu desci só pra perder tempo.

Mais uma vez ele fez uma careta e com uma mão indicou a direção que eles deviam seguir. Não precisava, ela sabia como chegar à casa de Helena há pelo menos cinco meses, mas tudo bem. Theo era um cara educado.

– Meu Deus, Sassy, você nasceu para morar na cidade grande.

Ela riu, afastando a franja da testa e colocando os óculos no lugar num movimento único. Fazia mais calor do que deveria ser considerado normal naquela época do ano.

– Sempre soube que eu tinha o nível certo de sarcasmo para lugares com a contagem de habitantes acima de um milhão.

Eles caminharam até a estação de metrô mais próxima conversando pouco e seguiram pela linha vermelha rumo a Monty Python em Tatuapé. O carro estava vazio e foi fácil conseguir lugares para sentar – era aquela hora de bonança após o caos do horário de pico.

Logo que sentaram, o celular de Sara apitou. Foi bem no exato momento em que ela rolou os olhos após ver um casal cheio de amores no fundo do carro.

– Eu odeio casais. – ela murmurou, tirando o celular do bolso e destravando a tela, depois olhou para Theo. – Quando você e Pati forem um casal, fiquem sabendo que serão odiados por mim. – Theo corou, mas Sara dispensou seu encabulamento. – Pois é, eu sei. Todo mundo sabe.

– Pati e eu não… – ele começou a se defender, mas foi interrompido.

Eu sei. Mas vão ser.

Houve um momento de silêncio enquanto Sara digitava uma resposta no celular e Theo tentava controlar o fluxo de sangue nas bochechas com um contentamento quase infantil.

– Por que você odeia casais, though? – ele perguntou cheio de curiosidade e ela olhou para ele se questionando se ele era pra valer.

– Ta de brincadeira, né? – ela respondeu num tom indignado. – Toda essa gente feliz esfregando sua felicidade na nossa cara como a ofensa que isso é, como se nós fossemos obrigados. – Sara estava falando baixo, mas seus olhos estavam fixos no casal que agora se levantava para descer na estação seguinte. – Odeio gente feliz.

– Vai me dizer agora que você não é feliz, Sass?

Sara precisou pensar por um segundo ou dois antes de ter uma boa resposta. Ela já esperava receber essa pergunta antes. A verdade é que era algo que havia lhe sido perguntado muitas vezes antes – até mesmo por ela mesma -, mas Theo era um cara legal de mais para receber uma de suas respostas atravessadas. Ele era o boy magia de sua melhor amiga e merecia um pouco de franqueza.

– Às vezes. – finalmente falou. – Boa parte do tempo, eu acho. Definitivamente quando Fish Mooney e Barry Allen estão na minha TV. Mas essa felicidade somada, essa que exige duas pessoas para existir me enfurece.

Seu celular apitou de novo e ela sorriu com a mensagem. Theo espiou o que ela estava fazendo e fez uma careta ao ver o nome na tela.

– Por favor, me diz que você não contou pro Ricardo nossa exata localização em meia hora. – o rapaz quase implorou e Sara corou.

– Bem… – Sara começou e Theo gemeu de desprazer. – Parece que ele estava indo para lá com uns paulistas. – Theo crispou os olhos e Sara se apressou em acrescentar – é assim que ele fala de todo mundo, você sabe!

De maneira exasperada, Theo confirmou com a cabeça.

– Oh, verdade. Ele só trata como gente as pessoas da terrinha dele. – desdenhou com um rolar de olhos. – O que ele está fazendo aqui, afinal?

Sara ficou quieta. Era verdade que Rick estava indo ao cinema ao ar livre com os amigos, mas isso não queria dizer que ele tivesse ido atrás de contar para ela. Foi ela quem entrou em contato na esperança boba que pudesse vê-lo mais um dia naquela semana de folga e alimentar um pouquinho o monstro abobalhado da paixonite desnecessária.

Também era verdade que ele parecia ter certo desprezo em relação à maioria das pessoas, mas ela achava que isso tinha mais a ver com ser rico esnobe do que com gostar ou não de gente que não era do Rio. Claro que existem ricos e ricos – ela sabia. Bastava olhar para Theo e Helena. Algumas pessoas simplesmente gostavam muito de se encaixar nos padrões, parecia.

– Pelo mesmo motivo que Pati e eu estamos aqui, eu acho. É a USP. – Sara finalmente respondeu. Era raro vê-la usar esse tom apaziguador na voz. Só acontecia quando ela queria defender alguém, mas não para os outros. Para si mesma.

– Sassy… – Theo interrompeu, mas sem o desgosto de antes. Ele deu alguns tapinhas nas costas da mão dela sem tentar ser muito consolador. – Nada muda o fato de ele ser extremamente rude com todo mundo. Quero dizer, ele está aqui, portanto é paulista…

– Como é que é? – ela perguntou, se segurando para não rir e ele começou a explicar.

– Você vê, São Paulo não é uma coisa só, um bloco sólido. Muita gente quer agir como se fosse, mas não é. Tem gente de tudo quanto é parte do mundo nesse estado, não dá pra querer fingir que não é um retrato pixelado, um mosaico. Quando se chega aqui… – ele olhou para Sara com tamanha seriedade que ela quase se sentiu mal por ter rido e quase entendeu o que ele estava falando. Eles levantaram de seus lugares porque iam descer na estação seguinte. – é como se ganhasse o cartão paulista. E isso até você tem.

Sara balançou a cabeça.

– Tenho não. – ela rebateu, mas dessa vez foi Theo quem riu.

– Ah, tem sim. – ele disse, se aproximando, os óculos dele refletiram na lente dos dela. Ele deu uma olhadinha rápida para o decote dela. – No fundo do seu coração você é mais paulista do que pensa.

Sara começou a rir e teve um atraso de alguns segundos para reagir à porta aberta indicando que poderia sair.

– Cê ta ligado que a Pati tem metade do me poder peitoral, né? – ela foi falando para as costas de Theo, que olhou para ela por cima do ombro.

– Claro que to. Muito mais o meu gosto, pra falar a verdade.

O queixo de Sara caiu e ela deu uma corridinha para alcança-lo assim que passaram pela catraca.

– Teodoro!

Ele rolou os olhos murmurando algo sobre ser “só Theo” que Sara ignorou.

– Você está tão apaixonado, olha que bonitinho, é tão fofo que me dá náuseas. – conforme falava, ela também passava os dedos pelo cabelo dele, bagunçando sem muito esforço e ele segurou seus pulsos fazendo com que ela parasse.

– Meu Deus, Sara, me deixa ser apaixonado, que chatice!

De fato, ela parou de provocar e eles subiram a rua que levava ao apartamento de Helena em silêncio. Foi só quando tocaram o interfone que Theo falou de novo.

– Você acha mesmo, Sass? Que logo Pati e eu vamos ser um casal?

Como resposta, Sara só rolou os olhos e sorriu.

 …

O cinema ao ar livre já estava meio cheio quando os três amigos chegaram para a sessão de Monty Python, com Sara imediatamente escaneando o loca atrás de algum sinal de…

– Sara! – Helena chamou, estralando os dedos na frente do rosto da garota. – Por acaso você ouviu alguma palavra do que eu disse?

– Depende. – a morena respondeu, ainda meio aérea. – Você tava falando em alemão?

Helena rolou os olhos, se virando para Theo em busca de suporte.

– Esquece, Lelê. – ele suspirou, chamando-a pelo apelido que só era usado em casos de emergência, indicando que a situação era irremediável. – Hoje a gente perde a Sara pro babacão da realeza.

– Hei! – Sara protestou, agora cem por cento focada nos dois. – Eu estou bem aqui! E que história é essa de realeza?

Theo cruzou os braços.

– Ué? – ele disse com uma sobrancelha levantada. – Não é verdade que todo carioca se acha parente da família real portuguesa?

Sara até abriu a boca para protestar, mas não teve tempo.

– Quem mais é parente da família real? – uma voz que ela conhecia bem perguntou atrás dela e Sara se virou, os olhos verdes o encarando com surpresa, porque, afinal, foi ele quem a encontrou e isso provavelmente significava alguma coisa, não? Não?

– Como? – ela rebateu, meio confusa com o turbilhão de pensamentos passando por sua cabeça.

– Do que vocês estão falando? – Ricardo perguntou e quem respondeu foi Helena.

– A gente estava aqui pensando se alguém que conhecemos tem um pouco de sangue azul, sabe?

Ele deu de ombros.

– Eu tenho. – falou, como se fosse obvio, envolvendo a cintura de Sara com um dos braços como se isso fosse a coisa mais normal do mundo, e continuou completamente alheio aos olhares incrédulos que Helena e Theo trocaram (como acontecia todas as vezes em que Ricardo começava a falar), porque ele estava olhando diretamente para Sara. – O primo do sogro do meu avô recebe um bocado de imposto real lá em Petrópolis.

Os três ficaram em silêncio, inclusive Sara, olhando para ele como quem se pergunta se ele está falando sério. Helena foi a primeira a dizer alguma coisa porque Sara, a rainha da ousadia, ainda estava sem fala.

– Você não prestou muita atenção nas aulas de biologia, né?

Ele balançou a cabeça em confusão e Sara crispou os olhos para a amiga.

– Enfim. – Ricardo prosseguiu, soltando Sara e unindo as mãos num gesto diplomático. Seu tom de voz sempre oscilava entre condescendente e politizado. Ele olhou ao redor, para as pessoas que se acomodavam em seus lugares e a tela improvisada ao ar livre com o ar interessado de quem se acha superior. – Quem teve essa ideia de cinema ao ar livre foi ao mesmo tempo espero e um completo palerma. – comentou como quem não quer nada.

A cada palavra que saía da boca dele, mais Helena e Theo fechavam a cara e mais Sara se inundava de vergonha alheia. Mas tudo aquilo, ela repetia para si, era por um bem maior. Era passageiro. Aquela semana do saco cheio era A semana do saco cheio e tudo se resolveria.

Hashtag-fé.

– Por quê? – Theo perguntou e levou uma cotovelada de Sara. Ele sempre fingia interesse no que Rick tinha para falar só para zuar depois.

– Maior filme de nerd todos os dias.

– E você veio mesmo assim. – Helena emendou no mesmo tom que Theo e Rick bufou.

– Os caras da rep queriam meu carro emprestado. Eles são do Centro Acadêmico e até que são legais, mas paulista não sabe dirigir. – ninguém disse nada sobre o fato dos amigos dele do CA serem de Brasília, eles resolveram guardar isso para si. – Aposto que vocês vieram porque é de graça, né Sara? Não dá pra ficar gastando dinheiro com essas paradas otárias.

Helena pôs as mãos na cintura, Theo cruzou os braços e Sara deu uma risada amarela, empurrando-o de leve.

– Uh, a casa da Lê é aqui perto e eu vou ficar lá uns dias – se explicou – Então a gente pensou “por que não?”

Ele riu.

– Esses paulistas, não é mesmo?

Sara forçou o riso de novo.

– É, eles são legais. – comentou, ignorando todo o papo de Theo sobre ela ser paulista de alma agora e lançando um olhar desculpado para os outros dois, que tinham as sobrancelhas levantadas.

Agora, era preciso entender que Sara via sim toda a rudeza e falta de tato de Ricardo. Ela estava ali para assistir Monty Python e carimbar sua carteirinha de nerd e o programa de eventos em suas mãos era muito atrativo para ela, mas isso não fazia dela otária (Sara estava longe, muito longe de ser otária), mas ainda havia o fator antes mencionado da paixonite desenfreada por esse rapaz da classe alta e isso causava um dano terrível à funcionalidade do seu cérebro.

– É, talvez. – ele falou, já sem interesse no assunto. – Sassá, você quer alguma coisa pra beber? Vou comprar uma Heineken.

Ela balançou a cabeça e então mudou de ideia.

– Uma Coca-Cola cairia bem.

Ricardo riu de novo e nem esperou que ela perguntasse qual era a graça para dizer

– É sempre engraçado quando vocês que apoiam a continuidade do comunismo no Brasil pedem alguma coisa tão capitalista. – e logo se virou para ir atrás das bebidas sem perguntar se os outros queriam alguma coisa.

– Uma água sem gás, por favor. – Helena resmungou.

– Se o apelido dele fosse Dick, eu não iria nem ao menos questionar. – Theo disse.

 …

Aquela vinha sendo a vida deles nos últimos meses – a impaciência com a passividade de Sara em relação a esse completo babaca só porque ele era gato e a batalha que sua consciência travava contra seus hormônios e cérebro, o jeito como todo mundo questionava suas escolhas como desde sempre ocorria, sempre com alguém terminando desapontado ou decepcionado (esse alguém costumeiramente sendo a própria) e o inconformismo de quando ela olhava para os outros e implorava

– Não arruínem isso para mim, eu estou quase lá.

Como se ela fosse a única pessoa a não saber que o que quer que fosse que estivesse quase lá entre ela e Ricardo não fosse dar errado.

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2 responses to “Construindo Sara

  1. 😥 By, como faz pra parar de ficar toda boboba com essas tuas produções? Acho que já surtei mais do q devia no chat do fb, mas, vamos deixar um comment porque se não deixar a autora morre (ou mata algum animal indefeso).

    Xoxoxoxoxo

  2. 😥 By, como faz pra parar de ficar toda bobona com essas tuas produções? Acho que já surtei mais do q devia no chat do fb, mas, vamos deixar um comment porque se não deixar a autora morre (ou mata algum animal indefeso).

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