Construindo Sara – Capítulo 2

Se você até já esqueceu o que a Construindo Sara é e nem lembra o que aconteceu no capítulo 1, basta clicar aqui.

Quando eu postei o primeiro capítulo, era aniversário da Sammy, que inspirou a Sara. Agora, hoje, é niver da Priscila, que inspirou a criação da Pati. É verdade que Patrícia sumiu no começo da história e ninguém sabe se ela vai voltar antes do final, mas não importa. O capítulo está aqui e eu realmente preciso continuar escrevendo (e digitando), porque eu sei que essa historinha tem potencial. Espero que gostem. x

ii.

Já ouviu aquela da moça inteligente que ignorava tudo de si pelo cara bonitão que talvez fosse capaz de inovar seus relacionamentos? – era o pensamento que vinha à mente de Sara cada vez que ela passava mais tempo conhecendo Ricardo. Nem mesmo nos livros bobos para adolescentes que sua amiga Carol resenhava no blog eram assim. Enquanto, mesmo quando mal escritos, eles tentavam retratar uma heroína ciente de si que “não é como as outras meninas”, Sara, no auge dos seus vinte anos se via numa sinuca de bico. Sua busca pelo seu Big Dick Rick estava resultando num tipo bizarro de cinquenta tons de idiotice.

Geralmente, quando seu cérebro chegava nesse ponto de argumentação, Rick sorria aquele sorriso com covinhas de galã do terceiro colegial e ela se obrigava a calar os pensamentos. Ela não sabia se ele chegava aos pés de Big Dick Rick, nem tinha ideia se ele faria o Christian Grey em sua vida. Ainda. Era consolador que Magic Mike 2 estivesse em produção, pelo menos. E mesmo se sua loteria tirasse o bilhete da trilogia sadomasoquista mal escrita, ela saberia o que fazer.

E esse era o maior problema de sair com Ricardo e companhia: ela sempre acabava fingindo estar prestando atenção, viajava na maionese e acabava no meio de alguma conversa perturbadora. Esses eram os momentos mais propensos para Sara se ver respondendo perguntas como

– A Sarinha leu esse livro aí. – um dos amigos de Rick falou sobre sua caneca de chope. Ele era do DCE, parte da trupe dos outsiders, como Ricardo gostava de chamar quem não era paulista.

Por sorte, em algum lugar de seu subconsciente, Sara tinha processado que eles estavam falando de Cinquenta Tons de Cinza (foi por isso que ela começou a viajar em primeiro lugar) e por dois segundos ela se perguntou como ele, Caique de Brasília, sabia sobre os livros que ela leu, até se lembrar que eles eram amigos no Goodreads e ele era o cara que sempre estava lendo algo interessante – não necessariamente cult, apenas interessante.

– O quê? – ela respondeu no automático e logo acrescentou.  – Ah, sim, li o primeiro. É uma grande droga.

Ela deu de ombros para enfatizar o pouco caso que fazia da sua lista de leituras e tomou um gole do seu guaraná sentindo profundas saudades de Guaravita. Talvez ela devesse mandar uma mensagem para Pati trazer umas muambas de casa também. Sara suspirou e olhou para seu lado esquerdo, a ponta da mesa onde estavam Theo e Helena sabendo que eles não iriam gostar do rumo que a conversa tomaria. Um dos motivos pelos quais eles se deram tão bem tão rápido foi porque conseguiam ser passionais sobre coisas que lhes interessavam na mesma intensidade em que se entediavam com o que não lhes chamava a atenção.

– Isso todo mundo sabe. – ele continuou. Caique de Brasília tinha uns cinquenta por cento a mais de sangue índio do que Sara, seus olhos negros eram gentis e seu sotaque era engraçado. – Mas você vai assistir o filme?

Ela deu de ombros de novo.

– Provavelmente não. Não legalmente, pelo menos.

– Eu fiz uma coisa ilegal uma vez. – Helena comentou mais para si mesma, seus olhos nos de Caique com seriedade. – Não valeu muito a pena.

Sara riu, mas Theo suspirou dramaticamente.

– A história do carro do seu tio de novo não! – ele quase implorou, mas mesmo que Helena quisesse contar essa história da sua vida ela não teria a chance. Não com Ricardo na roda.

– Por que não? – ele interrompeu, se dirigindo para Sara e ainda falando do filme. Às vezes em que ele queria sobrepor sua presença sobre a dos outros, Sara pensou, eram as vezes em que ele mais demonstrava interesse no que ela tinha para falar.

– Não sei, talvez por causa de todo o sexismo? Talvez por causa do relacionamento abusivo, a apologia ao estupro, a passividade da protagonista? Ou talvez seja o fato de que os personagens sejam inspirados em Edward e Bella Cullen, o que não faz o menor sentido? Ou talvez seja pelo simples fato de que eu li fanfics no AO3 melhores do que esse livro? Escolhe um motivo aí.

Quando terminou de falar, Ricardo a encarava com um misto de espanto e zombaria. Ele não estava acostumado a receber opinião com o nível de sarcasmo elevado (havia uma suspeita de que ele talvez não fosse capaz de entender sarcasmo, mas isso eram rumores que rolavam nos bastidores do Quarteto) e Sara tinha certeza que seus amigos ficariam orgulhosos dela por isso.

Sara levantou uma sobrancelha.

– Você leu o livro, Rick? – perguntou; foi inevitável. Ele bufou ofendido.

– Todo mundo sabe a droga da história. – rebateu o rapaz e ainda insistiu. – Não assinaria, Sassá?

Ela balançou a cabeça.

– Eu tenho amor próprio. – respondeu, o que era só meia verdade, mas verdade o suficiente para ser uma resposta sincera.

O jeito como metade da mesa olhou para ela, com sorrisos do tipo “boa resposta” foi uma pequena vitória.

 

Nenhuma pequena vitória compensava a grande derrota que foi chegar no apê de Helena e encontrar uma barata do tamanho de um hamster toda exibida na porta do guarda-roupas.

As duas acabaram amontoadas no enorme sofá da sala com os pés para cima porque ninguém tinha coragem de chegar perto do quarto. Estivesse Patrícia ali, ela mandaria as duas tomarem vergonha na cara e mataria a barata com, no máximo, duas tentativas. Estivesse Carol ali, ela perguntaria se elas nunca tinham experimentado o prazer de matar o ser asqueroso afogado em Bayon.

Mas quem precisou ser o salvador da pátria foi Theo, que tirou o carro da garagem de manhãzinha e viajou de Higienópolis para Tatuapé para salvar as donzelas em perigo.

É claro que quando ele chegou, já não havia nem sinal da barata e Helena resolveu arrumar suas malas, chamar a dedetização e passar os próximos dois ou três dias no apartamento da Sara.

Após Theo deixa-las na porta do prédio, que ficava nos arredores do hospital Santa Cecília – não era tão fora de mão assim para ele – falando sem parar sobre o Luau Democrata que aconteceria na Física , elas colocaram cupcakes para assar, tiraram cara ou coroa para decidir entre a primeira trilogia de Star Wars ou a nova de Star Trek, acabaram pegando Homem de Aço pela metade na HBO e dormiram de mal jeito no sofá, deixando os cupcakes queimarem.

O cheiro de queimado as acordou e ao abrir o forno em desespero o apartamento encheu de fumaça. Na maior pressa elas abriram todas as janelas e se trancaram no quarto de Sara esperando a fumaça ir embora no espaço de tempo de um episódio inteiro de House of Cards.

Quando viram, já era quatro da tarde e elas nem tinham almoçado. Olhando inconsoláveis para os cupcakes completamente pretos, transformados em carvão, as duas amigas suspiraram.

– A Pati vai me olhar com aquela ara de “Eu juro que não sei como você vai sobreviver sem mim” quando souber. – Sara resmungou e o celular de Helena apitou. Ao retirá-lo do bolso e ver a notificação, a garota mais nova fez uma careta.

– Vocês com certeza se conhecem muito bem. – Ela disse, mostrando o comentário que Pati fez no instagram.

– Quem mandou você postar nossos cupcakes fracassados na web??? – Sara perguntou exasperada. – É a lei: só se posta comida bonita no instagram!

Helena deu de ombros.

– Está feito, Sassy. – disse simplesmente, colocando o celular de volta no bolso e as duas colocaram as mãos no quadril admirando o desastre culinário. – Partiu Pátio Higienópolis?

Demorou alguns instantes, mas Sara concordou com a cabeça.

– Partiu.

 

A caminhada até o Pátio Higienópolis não era longa, mas era uma subida ingrata e as duas amigas a fizeram, em sua maioria, em silêncio. Esmo que estivessem com fome, elas toparam esperar Theo, que morava há algumas quadras de distância, e resolveram fazer isso na livraria que ficava exatamente acima do Outback, mesmo com Helena alertando que era quase horário da janta e o lugar ia lotar.

A livraria, que Sara nunca tinha ouvido falar e que, pelo look, ela duvidava que um dia chegaria à Cabo Frio, era modernoza de um jeito retrô que rico amava. Ela não precisou nem ver a reação de Helena para chegar à essa conclusão. Era uma loja circular cm paredes repletas de livros e espaços repletos de gente. Helena arquejou, atraindo a atenção de Sara e deu um pulinho no lugar.

– Sessão de arte! – ela apontou e a outra garota sorriu, como que dando carta branca para ela ir atrás dos seus arquitetos preferidos.

Além do mais, Sara queria espaço par achar livros que lhe agradassem sozinha.

Sara tinha um apreço especial por poesia, mas pouca gente sabia disso. Ela se viu atraída pelo livro extremamente fluorescente de Ana Cristina César e o pegou nas mãos sabendo que aquele não era o dia em que ela o levaria para casa. Era um livro lindo e caro que ela vinha namorando há quase um ano, mas ninguém lembrou de dar em seu aniversário.

– Mas você já pelo menos pegou pra ler alguma poesia nigeriana? – uma voz masculina perguntou ao lado dela, fazendo quebrar a linha de raciocínio e surpresa ela se viu cara a cara com Caique de Brasília, que estava encostado no balcão, um livro de capa branca em suas mãos e um sorriso nos lábios. Ele era bonitão, não era a toa que Sara tinha quase certeza que Helena tinha uma crush nele.

– Oi Caique. – ela cumprimentou com um sorriso. – Ta perdido?

Ele balançou a cabeça.

– Dois amigos meus trabalham aqui e eu gosto de vir atrapalhar aos sábados.

Ela aquiesceu e então a ficha caiu.

– É sábado. – Sara disse devagar. – Por isso o universo inteiro está no shopping!

Caique gargalhou e ela sabia que era porque ela tinha posto aquilo de maneira engraçada. Era algo em seu tom de voz que fazia as pessoas certas rirem.

– Essa parada de cidade grande é esquisita. – ela continuou, sabendo que tinha nele um bom público. – De onde eu vim, as pessoas vão à praia. Mesmo quem morou lá a vida toda, quando o dia é bom (o que é sempre), vai à praia e fica oh, tão maravilhado, porque é tão bonito. Mas e aí? Me fala desses poetas nigerianos porque eu não li nenhum.

– Já ouviu falar de Olu Aguibe? – ele perguntou e ela balançou a cabeça. – ele é crítico literário e é uma das principais caras da literatura do país. Ele tem um jeito cru de escrever, é incrível. Olha só. – ele abriu o livro que tinha em mãos e ela percebeu que era um paperback, uma coletânea de poemas em inglês. Ele marcou com o dedo a linha de um verso e começou a ler já no final de um poema longo – “My verse spreads ungathered, in this spell of purple, mine is the cry of a ram tethered, to the slaughter slab. There are no petals soft, no yellow center, no polished pebble melodies, piled into song, my words are rough – hewn from, these rocks where men toil, the plaintive voices of children, the plod of prisoners feet, the curses of the peasant woman, are the wattle of my song.”

Ele parou de ler antes do poema acabar e Sara suspirou.

– Uau.

– Eu posso te passar alguns autores, se você quiser. – Caique emendou e se virou para a parede de livros passando o dedo pelas lombadas à mostra. – Eu já quase conheço essa sessão de cor.

Sara tentou fazê-lo parar pousando uma mão no braço dele.

– Isso é muito legal da sua parte, mas… – ela olhou em volta e, para sua sorte, avistou Theo e Helena no meio da loja. – Eu só estou matando tempo. – ela sorriu. – a única coisa que quero gastar meu dinheiro no momento é com comida.

Ele abriu um sorriso simpático.

– Eu vi os cupcakes arruinados no instagram da Helena.

– Uma grande tragédia, fala a verdade. – Helena comentou parando ao lado deles e começou a cutucar Sara. – Outback. OutbackOutbackOutback. Quer vir também, Caique?

Ele balançou a cabeça.

– Vou esperar o horário dos caras saírem, parece que vai ter alguma especial no centro à noite.

Todos fizeram careta, inclusive uma garota que Sara demorou a perceber que estava com eles. Ela a reconhecia de fotos e embora fossem muito diferentes, era a irmã mais nova de Theo. Rosana ou Rute ou alguma coisa com R. Helena ainda estava cutucando Sara, que precisou segurar a mão da garota para fazê-la parar.

– Boa sorte, cara. – a garota branca falou já puxando Sara, que só teve tempo de dizer mais uma coisa.

– Me manda suas dicas no facebook depois. – e quando ele fez sinal de positivo ela se virou para ver o caminho.

No piso de baixo, o restaurante estava cheio, mas não absurdamente lotado ao ponto de não conseguirem lugar. Sara deixou que os outros, conhecedores do local, fizessem os pedidos e viu Rita – era Rita – pestanejar por pão extra e ficou analisando o local, se perguntando se era a crise hídrica que estava forcando todo mundo a diminuir a luminosidade. Ela não tinha tido tempo nem para tecer um comentário quando os refrigerantes e o pão foram postos à mesa.

– A comida daqui – Helena avisou tirando seu canudinho preto do embrulho. – vai mudar sua vida.

Era uma afirmação e tanto e Sara disse isso conforme ela cortava um pedaço de pão australiano.

– Pera aí. – Rita interrompeu. Ela estava sentada ao lado do irmão enquanto Sara e Helena dividiam o outro sofá de vinil. – Você nunca comeu no Outback?

Sara fez que não com a cabeça e Rita fez menção de começar a rir, mas Theo foi mais rápido.

– O que eu falei sobre zuar pessoas que não têm as mesmas oportunidades que você? – ele alertou.

A garota rolou os olhos, mas não disse mais nada. Rita Mulcher-Ramos tinha a pele café com leite, cabelos cacheados e olhos escuros que eram a única coisa em comum com o irmão. Ela não tinha nada do estilo hipster que ele exibia. Ela havia puxado a mãe deles, dona da porcentagem alemã do DNA que eles ostentavam. Rita também era um pequeno gênio, já no segundo ano de medicina da UNIFESP em plenos dezoito anos de vida, o que era um pouco revoltante para quem não tinha a vida resolvida, como Sara.

– Sem ofensa, Sassy. – Theo se apressou em completar. – É só que…

– Tudo bem, eu entendi. – ela assegurou, porque sabia o que ele queria dizer.

Não era uma questão de ter dinheiro ou não. Sara estava ciente que, com os amigos certos, ela nunca teria problemas para rachar a conta. Era uma questão geográfica. Não tinha Outback em Cabo Frio e ela havia passado os últimos vinte anos naquela cidade. É por isso que ela nunca tinha comido ali. Não teve a mesma oportunidade da garota prodígio que cresceu na cidade grande, fim de papo.

Era estranho, mas não era ofensivo.

– Mas por quê? – Rita insistiu. O pão, que já estava na metade, ganhou um irmãozinho recém tirado do forno. – Quer dizer, você está aqui desde fevereiro.

– Não tive tempo. – a carioca respondeu dando de ombros.

– Copa?

– Voltei pra casa dos meus pais.

Rita fez que sim com a cabeça.

– Isso explica muita coisa. – comentou e mesmo que Sara achasse que não tinha muito o que explicar, ela não disse nada.

– O que vocês estão pensando em fazer essa semana? – Theo perguntou mastigando um pedaço amanteigado de pão.

– Trabalhar. – Helena respondeu ao mesmo tempo que Sara disse

– Tentar entender o que diabos está acontecendo no campus.

O homem da mesa olhou de uma garota para a outra esperando alguém dizer alguma coisa e Sara cortou mais um pedaço de pão se segurando para não assumir que já estava convencida mesmo sem nem ter sentido o cheiro da tal costela ainda.

– É semana do saco cheio. – Rita disse e o irmão aquiesceu.

– Exceto que a USP não decreta semana do saco cheio, então muitos cursos se dispõem a fazer programações especiais nessa época ao invés de ter aula. São palestras e semanas de arte, coisas do tipo. É bem divertido.

Houve uma pausa para o garçom colocar dois pratos enormes de fritas com queijo e bacon entre eles. Em algum momento pratinhos e talheres tinham sido distribuídos e todos se apressaram para colocar seus guardanapos no colo.

– Eu não sei o que tem de mais nisso. – Sara comentou apontando os pratos que estavam sendo atacados por três pares de talheres. – Eu poderia fazer isso em casa.

Helena respirou fundo e pousou seus talheres, em parte porque ela queria ser dramática, mas em parte também porque precisava esperar sua vez de pegar molho e pousou uma mão no ombro da amiga.

– Quando você colocar na boca, Sassy. Então você vai saber.

– Esse ano, – Theo continuou entre garfadas e mastigadas. – a programação mais legal que eu vi vai acontecer na terça, na Física. É meio que um show de talentos, meio que um open mic. O DCE que está organizando.

– O tal do Luau Democrático? – Helena perguntou. Sara teria perguntado a mesma coisa se estivesse tão envolvida em suas batatas. Na verdade, Sara achava que poderia investir naquelas batatas para sempre.

– Ele mesmo. – Theo confirmou e Helena fez um som de compreensão.

– Deixa eu adivinhar, você que fez toda a arte de divulgação.

Ele confirmou orgulhoso.

– Até a capa do facebook.

– Cara, existe quem pague pra fazer capa de facebook? – Helena perguntou e os irmãos Ramos confirmaram com a cabeça sem julgar porque, afinal, não era todo mundo que era dono de gráfica. – Não é só jogar as imaginhas no Canva e botar um textinho e tá-dá?

Os Ramos quase julgaram, mas se distraíram com o animo que Sara imprimia para separar uma quantidade generosa de batatas e coloca-las em seu pratinho.

– Nada se compara ao nascimento de um Outbacker. – Rita comentou e, acredite ou não, tinha um pouco de orgulho em sua voz.

 

Só quando estava na metade de sua terceira costela e que Sara voltou a se sentir sociável, um espaço de tempo usado para Theo e Rita explicarem as complicações do trabalho de uma gráfica. Ela já tinha ouvido aquele discurso, sabia bem do que se tratava. Theo trabalhava num canal pago, mas como ele era muito bom, a única coisa que tinha era deadlines. Sem horários para cumprir, ele montou sua própria gráfica a edícula da casa dos avós e o trabalho pequeno que fazia na faculdade estava quase virando renda principal.

Sara não tinha a menor ideia de como Theo conseguia manter tudo em ordem e, pra ser sincera, ele era seu grande exemplo de vida nesse aspecto.

– Queria ir no Ibirapuera amanhã. – ela soltou do nada e os outros fizeram uma cara pensativa.

– Tem certeza? – Theo perguntou. – Porque vai estar lotado, é domingo.

– Eu sei. – Sara aquiesceu. – Mas eu tenho que ir antes de perder o animo e antes de começar a montar meu roteiro.

– Pra quando que é? – Helena perguntou.

– Dia vinte e dois. Eu quero falar sobre procrastinação universitária.

Theo e Helena riram e Rita suspirou.

– Você vai mesmo usar o feriado pra fazer esse trabalho? – Helena disse quase surpresa e Sara fez que sim. Rita suspirou de novo, apoiando o cotovelo na mesa e o queixo na mão.

– Saudades procrastinação.

– Você ainda ta na época de levar a faculdade à sério. – Theo disse, como se fosse um analista. – O primeiro ano e sempre assim: a gente tenta nosso melhor, se esforça um bocado. Alguns tentam balancear a farra e conseguem, alguns não… outros nem se dão ao trabalho, mas uma coisa todos têm em comum: o primeiro ano é o alicerce para se saber se aquele universitário vai ou não se firmar.

– Formar. – Helena corrigiu e Theo fez que não.

– Firmar. Ele pode chegar a não pegar diploma no final, mesmo tendo se firmado. Primeiro ano da faculdade determina muito a pessoa que você vai se tornar, não importa quantas faculdades você faça.

Enquanto ele falava, Sara fisgou seu celular, abriu o bloco de nota se anotou a seguinte frase: o primeiro ano é o alicerce para saber se aquele universitário vai se firmar.

– Como os meus prédios que os engenheiros têm que se virar para transformar em realidade! – Helena afirmou rindo e Theo apontou para ela.

– Exatamente!

– Tudo uma questão de alicerce. – Sara repetiu e balançou a cabeça entendendo. – Já sei o que fazer no trabalho. – ela sorriu então voltou o foco para os outros. – Ibirapuera amanhã?

– Demorô. – Helena concordou, mas Theo e Rita balançaram a cabeça.

– A gente não pode. – o irmão mais velho disse enquanto a mais nova balançava a cabeça em concordância, seus cachos balançando sobre os ombros e Sara murmurou um “ah, é”. Os pratos vazios foram substituídos por um pedaço de brownie com sorvete. – Escola dominical de manhã, culto à noite.

– E o pastor pediu para eu cantar e dar testemunho. – Rita acrescentou sorrindo. Sara sorriu também, mas não tinha comentários a fazer, diferente de Helena, que perguntou o que tinha acontecido de especial para a garota testemunhar.

Enquanto devoravam seu pedaço compartilhado de brownie e pagavam a conta, Sara zoneava entre ouvir a história comovente de conversão lenta da colega de classe de Rita e planejar o começo do seu roteiro a partir da ideia que Theo havia plantado em sua mente. Parecia que as coisas estavam começando a se encaixar e, para ela só bastava começar.

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