Éden – Capítulo 15

Quem é vivo sempre aparece, não é mesmo? Lucas & Carol fez um ano de vida, logo é aniversário da Amor às Avessas e a Éden, tadinha, que eu comecei a escrever antes de todas essas, ficou de lado. Sry.

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CAPÍTULO 15

Profissões curiosas (não as que fazem coisas curiosas, mas as que são curiosas):
– medicina (altamente livre)
– política de alto escalão (altamente livre)
– engenheiros de tecnologia (restritamente livre)
– segurança de estado (restritamente livre)
(nenhuma delas me interessa de verdade)
(Huston, we have a problem.)
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Éden – Capítulo 14

CAPÍTULO 14

O pareamento acontece logo quando somos crianças. Sei disso porque meu avô, pai do meu pai, trabalhou por muito tempo pareando pessoas. Mesmo que não fosse permitido participar do pareamento final de algum familiar, até hoje reza a lenda de que vovô interferiu com os meus pais, que ele deu um jeito de colocar meu pai com a garota mais bonita da cidade. Dizem que Alan Pires nunca conseguiria conquistar uma garota como Mini Gomes, mas eu vejo como os dois são diariamente e vou dizer uma coisa: eles são perfeitos.
Até porque vovô me contou como essas coisas funcionam. Eles esperam as crianças terem sua sexualidade mais ou menos evidente antes de mais nada. É meio óbvio, se você for meio gay, dá para dizer logo no início. Depois disso, eles veem sua classe social (que hoje em dia consiste em o que sua família faz ao invés de quanto dinheiro você tem; ninguém mais é ridiculamente rico), determinando assim quem seria seu par ideal.
Boa parte de nossas vidas não sabemos com quem iremos casar. Isso não é tão importante quando temos sete anos. Mas, de alguma forma, crescemos nos aproximando daquele que foi escolhido para nós; nos conhecemos, ficamos amigos… se o pareamento estiver correto, em algum momento nos apaixonaríamos. Só então temos o segredinho revelado (apesar que sempre acabamos descobrindo de alguma forma, já que nossos pais sempre são informados e tudo mais).
Funciona incrivelmente bem.
Até porque não é como se alguma droga fosse inserida em nosso corpo ou fizessem algum tipo de cirurgia em nosso cérebro como a intervenção. Nós passamos pelos processos da vida, todas as suas fases. Não tem como falsificar um amor desses. Natural.
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Éden – Capítulo 13

CAPÍTULO 13

Laranja Mecânica, por Anthony Burgess, parte três, capítulo seis, página 201 da minha versão. Alex, nosso humilde narrador, está conversando com seus pais sobre voltar para casa. Alex sabe que está de volta.

Existem testes de aptidão durante nossa vida toda. Eles nos observam por todos os lados, mesmo que finjam que não – da mesma forma que fingimos que não estamos vendo. Eles provavelmente iriam me transformar em uma intelectual da literatura, já que meu par era o Sr. Medalhista Olímpico (com apenas quinze anos, deve-se acrescentar) Oliver Martin. Se eu tivesse sido pareada com qualquer um menos importante que isso, com certeza viraria uma professora de colegial.
Eles sabem que eu amo ler, apesar de eu sempre dizer que, na verdade, meu livro preferido é O Chamado Selvagem, de Jack London (para ser sincera, acho a narração no ponto de vista do cachorro uma das coisas mais fantásticas que já li, mas nada bate minha coleção Burgess). Tenho sido colocada nas classes avançadas de literatura desde os quatorze anos e obrigada a argumentar as nuances da literatura, blablabla. O livro desse mês é On the Road.
Acho que prefiro morrer.
Eu leio pela diversão e Kerouac é o tipo de autor que exige de mais do leitor. E não é o mesmo tipo de exigência de Tolkien; OTR é cansativo e Dean Moriarty é um chato. Não tem nada fantástico para distrair, como Crônicas de Gelo e Fogo, nem é desafiadoramente inteligente como O Mochileiro das Galáxias. Em resumo, não tem muito a acrescentar em minha vida.
Estou reclamando da literatura porque, no fim das contas, até a medicina é mais interessante. Quero dizer, duvido que eu ficaria por aí abrindo a cabeça das pessoas, mas eu super toparia anos e anos trabalhando com pesquisa. Ouvi dizer que, quando você passa para a segunda metade do curso de med, você sofre outra intervenção que faz sua cabeça funcionar melhor com todo o aprendizado.
Queria uma intervenção pra voltar no tempo e bater um papo com Scott Westerfeld. Hey, cara! Você quase acertou tudo em Feios, uau!
A questão é: não quero trabalhar com literatura ou medicina. Minha maneira de abrir a cabeça ou a mente das pessoas é na porrada. Quero ser do exército. Não tem um exército nessa cidade? Nesse estado? Nesse país? Não? Nenhum país?
Acho que quero ser política.
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Éden – Capítulo 12

Sentiram falta dessa aqui? Não, né? Não tem ninguém lendo. Mas vou postando mesmo assim.

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Éden2

CAPÍTULO 12

Foi assim que o Dony descobriu o que fazer para voltar:
Nós locamos esse filme chamado Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças um dia porque não tínhamos nada para fazer. Costumamos encontrar as coisas que mais fazem diferença em nossas vidas quando não estamos procurando por elas.
Nele, um cara resolve apagar todas as memórias que ele tinha da ex-namorada, porque ela tinha feito o mesmo sobre ele e era doloroso de mais viver dessa forma – num mundo em que ele seria um completo estranho para alguém que conhecia tão bem.
Enquanto as lembranças são apagadas, ele vai percebendo o quanto ainda ama a garota e o quanto ele não quer esquecê-la; durante a sessão, ele luta contra o esquecimento de todas as formas possíveis até perceber que é inevitável, que quando ele acordar pela manhã, poderá trombar com sua garota na rua e nenhum dos dois vai saber quem o outro é.
(Eu guardo com carinho uma cena em especial. Aquela em que eles estão debaixo do cobertor e ela pergunta se ele a acha bonita. Ele implora “Por favor, me deixe manter só essa. Só essa lembrança.”, mas não muito depois, ela se vai.)
O ponto importante desse filme é que eles se encontram novamente – depois que ambos esqueram um ao outro – e, de alguma forma, eles se conectam mais uma vez. Porque a memória se foi, mas o sentimento ficou. E por mais que eles fossem quebrados, eles se amavam e máquina nenhuma pode tirar isso de você.
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Éden – capítulo 11

CAPÍTULO 11

Comecei a reparar em algumas coisas, como a pequena marca do lado esquerdo na cabeça das pessoas. Geralmente o furo é feito na linha do coro cabeludo, porque assim não chama a atenção e seria escondida rapidamente.
Passei a reparar nisso depois de uma tarde que fiquei na escola lendo o livro de medicina que a mãe do Ollie tinha me emprestado para estudar. O livro dizia que o lobo frontal, que é o lado da frente e da esquerda do nosso cérebro, é responsável pelas nossas vontades, foco e senso de liderança. É onde somos afetados. A pequena mexida que eles fazem nos transforma em ovelhas, vivendo em bando e seguindo alguém; ao invés de produzirmos lã, produzimos amor.
Todo mundo sabe o que acontece com a ovelhinha diferente, não? A negra.
Ela recebe tratamento especial.
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Éden – Capítulo 10

CAPÍTULO 10

Outro dia, Anninha me pediu para ler um pedaço do meu diário. Mesmo sendo cinco anos mais nova que eu, depois de Dony, minha irmã é minha melhor amiga e sabe de tudo que eu faço. Seu jeito perfeito para o paraíso esconde uma pessoa forte que sabe guardar segredos e compreender. Eu conto com ela.
O curioso sobre Anna ter pegado o diário para ler é que ela me perguntou porque eu escrevo para uma terceira pessoa, como se estivesse conversando com um desconhecido.
Eu respondi que, se meu cérebro vai ser camuflado como eu sei que vai ser, então eu serei uma desconhecida. Não importa se minhas memórias ainda estarão em minha cabeça. Michelle Pires, você precisa ouvir sua história através da sua verdadeira voz.
Michelle, tudo é muito podre e zuado do lado de cá.

Éden – Capítulo 9

We are back!

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CAPÍTULO 9

Eu só peguei Laranja Mecânica para reler três anos depois, aos quatorze. Eu estava arrumando meu quarto porque Anna teria que passar a dormir comigo – mamãe já passava da metade da gravidez do Breno. Meu irmão veio todo de surpresa, sem ninguém planejar, por isso nossa casa só tinha três quartos. Foi só dois anos atrás (depois do drama Dony) que meus pais resolveram reformar a casa para que cada filho tivesse seu espaço novamente.
De qualquer forma, eu estava fazendo essa grande limpeza no meu guarda-roupas, vendo o que eu manteria, o que ficaria para Anna e o que seria mandado embora quando encontrei o exemplar um bocado mais amassado do que anteriormente, por ter ficado apertado atrás das cobertas e jogos de tabuleiro.
Me lembrei do quanto o livro me intrigou, de como algumas coisas não fizeram o menor sentido quando o li e me julguei madura o suficiente naquele momento para tentar compreender suas palavras tão século XX.
Mesmo sabendo que aquela realidade de violência e loucura não existe mais em todo o mundo – todo o mundo, você consegue acreditar? – e que Burgess fazia referência ao presente e futuro, falava sobre uma sociedade distópica não tão distante da que ele vivia, eu nunca me senti tão compreendida quanto com aquelas palavras.
Era tão diferente. Mas era totalmente igual.
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