Amor às Avessas – Capítulo 2

Capítulo 2

Lena sempre foi minha referência de beleza. Eu sempre olhei-a e soube que ela era muito mais bonita que eu. Todos amam Lenora Pavão. Eu a amo.
Sei que ela não quis que Miguel se apaixonasse por ela, sei que nem tentou fazê-lo se apaixonar. Aconteceu e eu entendo. Porque ele escolheria a mim quando ela está bem aqui?
Não é autopiedade, nem quero ninguém sentindo pena de mim. São apenas fatos.
Não entenda errado.
Faz sentido – o que, porque aconteceu.
É só que… cara… eu queria muito que as coisas virassem ao meu favor só dessa vez.
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Amor às Avessas – Capítulo 1

“And you can tell everybody this is your song
It might be quite simple, but now that it’s done
I hope you don’t mind that I put down in words
How wonderful life is while you’re in the world.”
Elton John – Your Song

Capítulo 1

Uma rápida passagem pelos anos prévios de minha vida.
Eu era a piadista da turma até no momento da minha formatura do ensino médio em 2002, quando subi as escadas para pegar o diploma de pés descalços e short jeans por baixo da beca. Isso muda um pouco quando, em 2003, recebo a melhor noticia de todos os tempos também conhecida por “passei no vestibular” e fui posta numa sala com outras 34 versões de mim.
Não importa. Eu tenho minhas amigas, a gangue. Entre elas, minha garota, minha pessoa: Lenora. Que, enquanto eu curtia loucamente ser caloura de economia, ia ser louca de outra forma: estudando.
(os esforços dela foram recompensados, já que ela entrou em medicina no ano seguinte, na mesma universidade que eu, mas isso não entra no meu rápido flashback, que só pula direto para nós duas almoçando juntas no restaurante universitário)
Lenora é a melhor. Ela é só um ano mais nova que eu, mas nós tínhamos – temos – esse respeito mútuo uma pela outra. Crescemos juntas e superamos diferenças. Éramos sempre nós duas no centro das fotos. Minha pele café-com-leite ao lado da pele incrivelmente branca dela, meu cabelo que nunca passava dos ombros e a longa trança que lhe batia na cintura. Ela magra, linda, e eu cheinha. E linda, porque não?
(a quem estou tentando enganar?)
A única característica física que temos em comum são os olhos escuros.
De qualquer forma.
Me formei, consegui emprego e juntas começamos a fazer parte desse enorme grupo de amigos totalmente diferentes dos que tínhamos antes.
Nesse grupo tem um cara. O nome dele é Miguel, ele tem olhos verdes e covinhas. Uma graça, verdade. Usava aparelho, era extrovertido, fazia geociências.
Sabe aquela coisa de comédia romântica? Aquela, de pessoas se olharem pela primeira vez e o coração bater mais forte, de tudo ficar em câmera lenta e os olhos brilharem e elas se conectarem imediatamente e decidirem que precisam um do outro?
Vou adiantando: essas coisas não acontecem.
É a cruel realidade.
Eu não caí de amores pelo Miguel imediatamente. Nós ficamos ali naquele grupo, Lena e eu, e descobri muitas coisas, como ele ter feito técnico na mesma escola que eu (anos depois de mim) e, que bebê!, ele ser três anos mais novo.
Foi em algum momento entre eu lembrar que costumava ter quedas por garotos mais novos e perceber que tinha um tempo que não me apaixonava por ninguém que resolvi que Miguel seria um bom partido em minha vida.
Passei a observá-lo com outros olhos e conversar com ele na esperança Nicholas Sparks de que um dia ele me olharia diferente, li chick-lits e ouvi Journey até meu cérebro protestar. Quando percebi, estava apaixonada.
Era 2010.
E, como eu disse, a vida não se passa nas linhas de um livro de capa cor de rosa.
Eu conversava com o Miguel e o assunto que ele tinha para mim era:
“E a Lena, sabe dela?”
No dia em que minha ficha caiu, voltei para casa chorando, me achando estúpida por querer algo que eu sabia que não ia acontecer.
Sabe… eu me sentia muito melhor quando não gostava de ninguém.
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Lucas & Carol – Epílogo

Chegamos ao final de Lucas & Carol, dá pra acreditar?
Comecei a escrever despretenciosamente e gostei tanto do que tinha (um capítulo com menos de 400 palavras) que resolvi mostrar para o mundo e ganhei leitores fiéis e lindos, que torceram por Lucas e Carol, brigaram comigo por torturar personagem e leitor e questionaram diversas vezes “cadê o capítulo???”, se eu deixava de aparecer por um dia ou mais.
Foi arriscado – começar a escrever e, mais que isso, continuar escrevendo – mas eu me comprometi e cumpri.

Veja bem, Carol é a personagem mais parecida comigo que já escrevi até hoje. Os medos e incertezas dela são meus medos e incertezas, e a chatice dela é minha chatice. E eu espero conseguir superar minhas inseguranças como Carol vai conseguindo, passo a passo. E, também, acho que muita gente que leu esse pequeno romance, em algum ponto, se sentiu meio Lucas, meio Carol. Porque se não, qual o ponto em escrever, não?

Espero que vocês tenham amado essa pequena história e seu desfecho tanto quanto eu amo. E obrigada mais uma vez pelo apoio e comentários.

Stay awesome.
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Lucas & Carol – Dia 20

DIA 20

Eles deitam em um colchão posto na sala da casa alugada, um de frente para o outro, os dedos da mão direita dela entrelaçados nos da esquerda dele, mascando chiclete e conversando pouco sobre qualquer coisa – o calor do Rio de Janeiro, a escolha de profissão, a família em casa, os musicais preferidos.

Ela se aproxima dele alguns centímetros, segura a mão dele com firmeza e o olha nos olhos.

– Sabe quando os filmes chegam ao fim e é perfeito? – ela diz, num tom baixo. – Como Dom Cobb deixando o peão de lado para ir abraçar os filhos, é simplesmente… – ela suspira.

– Sei. – ele responde. – Você gosta desses finais.

Ela faz que sim com a cabeça.

– Gosto, porque eles dão a impressão de que não são mesmo o fim. Dão a impressão de que a história está apenas começando.

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Eu não sei, mas tenho a impressão de que ESSA MÚSICA é a trilha oficial da história, sl, só especulando.

Lucas & Carol – Dia 27

DIA 27

I was scared, I was unprepared for the things you said.
If I could undo that I hurt you, I would do anything for us to make it through.”
Christina Aguilera.

É cedo quando chegam ao aeroporto, porque a primeira a ir embora é Thalia. As amigas parecem tranqüilas num primeiro momento, mas conforme os minutos passam e elas percebem que o que viveram durante aquele mês está oficialmente acabando, todas ficam chorosas e as fotos que ele se voluntaria a tirar são cômicas de um jeito trágico.

Almoçam todos em um restaurante ali mesmo e pouco depois do meio dia Nanda e Sara se despedem, porque têm que entregar a chave para a dona da casa e Sara ainda tem quase três horas de volta para Cabo Frio.

Carla e Carol são as únicas no mesmo vôo, rumo à capital paulista. Elas tentam parecer casuais, é meio difícil ignorar a situação com Lucas ainda ali. Elas aguentam firme até a penúltima chamada de embarque e se veem obrigadas a levantar, se encaminhar para o avião.

Carla se despede de Lucas primeiro, deixando a parte dramática para quem entende do assunto, se afastando e dando espaço para que ele e Carol pudessem dar seu adeus.

Ela se aproxima com um sorriso triste no rosto, a mala de rodinhas ao lado do corpo e ele é sério, curioso para saber como ela reagirá. Ela estende a mão para cumprimentá-lo.

– Bem… – ela diz, tentando manter a voz firme. – Foi divertido… um prazer. – completa, com um gesto de cabeça simpático.

– O que tu tá fazendo? – ele dispara, olhando para a mão estendida dela.

– Eu… – ela abaixa a mão, indecisa, e suspira. – Foi divertido.

– Você insiste em falar no passado.

– O que você quer que eu diga? Eu sei como as coisas acontecem, Lucas. – ela responde num tom tão tranquilo que ele não consegue se sentir ofendido. – Eu moro em São José do Rio Preto. Você tem uma vida inteira aqui, no Rio. É sua cidade, seu trabalho. Não posso querer que você se divida em ter que ir para aquele fim de mundo. Você tem sua carreira e eu sou só uma garota do interior. Nós tivemos nosso tempo.

Ele quer rebater. Quer dizer que é pura baboseira e que eles podem dar um jeito, mas sabe que ela está certa e que é muito difícil manter um relacionamento desses.

O problema é que ele gosta tanto dela. E sabe que ela gosta dele tanto quanto, mas a vida é tão complexa!

– Você quer que seja possível. – ela prossegue, naquele mesmo tom calmo, conformado. – Mas nós sabemos que não vai rolar. A sorte não está ao nosso favor.

Ele morde o lábio, procurando as palavras certas, mas ela sempre foi a tagarela da relação e ele só fala quando necessário.

– Eu queria… – ele começa. – Que a gente tentasse.

Ela sorri novamente e a dor é quase palpável. Se aproxima dele e ergue-se na ponta dos pés para ficar com o rosto próximo dele.

– Meet me in Montauk.¹ – sussurra e se afasta um passo.

Ela quer continuar andando rumo ao salão de embarque. Quer conseguir se afastar. Mas no momento que anunciam a última chamada para o vôo dela, ela corre para os braços dele e o beija demorada e apaixonadamente.

E quando vira as costas para ir embora, é como se ela nunca tivesse chorado tanto na vida.

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¹Referência ao filme “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” que deve ser incluído na vida de todo mundo.
Música da epígrafe AQUI.

Lucas & Carol – Dia 36

DIA 36

O livro que ela lhe deu fica ao lado da TV desde aquela tarde e ele nunca deu muita atenção. Mas ele se vê tão ferido, tão sem direção, que faz uma maratona Brilho Eterno, Amélie e Romance antes de resolver pegar o livro para ler.

Já é madrugada quando fecha o livro aos prantos. Ele não chorava assim desde que quebrara o pé anos antes na série de grupos do mundial da seleção juvenil e não pode mais jogar aquela temporada, aos dezoito anos.

Que tipo de garota – mulher – é aquela Carolina, que chega à vida dele como quem não quer nada, destaca algumas frases com marca-texto e faz tudo mudar de sentido?

E que tipo de homem ele é, que a deixa ir embora?

Lucas & Carol – Dia 27

DIA 27

Ela é a pessoa mais egoísta que ele já conheceu na vida.
É egoísta porque só pensa em si mesma. “Não me machuque.” “Não brinque comigo.” “Não quero me ferir.”
Ela impunha limites e testava suas bordas. Ela faz o que quer.
Ela é egoísta com ela mesma, porque nunca se permite sentir de verdade. Como se ela vivesse para o fim, como se ela nunca chegasse ao ápice do que sentia, porque visualizava o fim da linha desde o começo.
Egoísta e medrosa.
E ELE? O que ela tinha em mente sobre ELE? Que tipo de brincadeira retorcida era aquela que viveram durante aquele mês? Ela conseguiu tê-lo nas mãos, fez com que ele se apaixonasse por seu jeito quebrado e distinto de ser para o quê? Nada?
Num acesso de raiva, ele arremessa o celular para o outro lado do quarto e não é preciso ser um profissional para dizer que o aparelho dá perda total, com a força que ele tem.
Garota egoísta.
E agora ele nem celular tem mais.

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Errata: AGORA faltam 4 capítulos para acabar.