resistindo na boca da noite um gosto de sol

Quando eu era mais nova, eu odiava o Brasil. Não consigo lembrar porque. Tudo que eu sei é que, por muito tempo, eu não via a hora de conseguir sair daqui. Ficou mais intenso na época que li Harry Potter, eu sonhava em ir pra Inglaterra e nunca mais voltar.

Um dia, isso passou. Não lembro porque. Acho que eu simplesmente aceitei que esse país é meu – com seus defeitos e turbulências, mas meu mesmo assim. Era uma época boa, o final dos anos 2000. Eu tinha conseguido fazer curso técnico, depois entrei numa universidade de prestígio, tudo na minha própria cidade. Life was good.

Acho que meio que era como meu caso de amor e ódio com o Rio, talvez, essa minha dificuldade com minha identidade brasileira. Eu era alimentada por meus próprios preconceitos (contando com a ajudinha de alguns nativos, é verdade) e acabei crescendo um ódio de raízes rasas. No dia que pisei no Rio, sob céu cinzento, sem ao menos ver a praia, me apaixonei. Parece que me deixei apaixonar pelo Brasil, depois de uma vida inteira aqui e somente aqui, sem precisar sair dessa terra.

E então eu vinha tocando a vida. Não de maneira suave como eu gostaria que fosse, sou uma prisioneira em minha própria mente, mas em geral tava de boa.

Só que eu cometi um erro grave ao pensar que todas aquelas aulas de história serviram pra alguma coisa. Ajudei a rir dos memes sobre 7×1, reclamei o tempo inteiro de como 2015 foi ruim, mas nunca, em momento algum, pensei que veria outro 31 de março de 1964 em pleno 17 de abril de 2016. Não achei que aquela parada de “a história é cíclica” fosse pra valer em pleno 2016. Não achei que andaríamos pra trás.

Parecia tão incabível, impensável. Parecia algo a se dispensar com um aceno de mão. “A presidente vAI CAIR!” “Mas pq?” “PQ SIM.” É argumento quinta série. Lógico que não levei à sério.

Devia.

17 de abril de 2016, e eu chorei. Eu sei que choro por qualquer coisa, mas hoje doeu. Doeu porque tive que ver gente pobre de origem humilde comemorando o que foi alimentado pela mídia. Doeu porque tive que ver novamente o povo com dinheiro da minha lista de amigos comemorando o resultado a favor daqueles que vão governar pra eles e eles exclusivamente. Doeu porque a maioria dessa gente é crente e devia saber melhor. Gente que leu a bíblia. Gente que devia ter consciência de que quem vai entrar no poder, caso o circo passe no senado, é quem não tá nem aí pro que Jesus realmente ensinou na bíblia. E porque eles SABEM disso. Eles sabem. Que cristianismo é esse, meu Deus?

Não é como se depois de tudo isso eu tivesse voltado ao status “odeio o Brasil”, mas o dia foi longo e eu quis estar longe daqui. Não como a direita elitista, que prometeu ir pra Miami (quem dera tivessem ido :/), mas simplesmente fora daqui, sabe? Como quando você cansa de ficar em casa e vai dar uma volta no quarteirão. A palavra em inglês para o que senti (sinto) seria overwhelmed. Exausta, quase. E tudo que eu fiz foi torcer.

Demorou um tempão pra eu entender que era pobre. Nem quando a gente teve que receber cesta básica de amigos o conceito fazia muito sentido pra mim. Acho que até hoje não entendo direito. O meu subúrbio é diferente do morro, mas é pobre mesmo assim. Demorou pra eu entender quando minha mãe dizia “vai pegar cotas sim, porque é seu direito” (apesar do meu privilégio de ser ~moreninha café com leite~), que tudo isso era parte de um plano pra diminuir o abismo entre mim e um cidadão de Nova Campinas ou Alto Taquaral. Demorou pra eu sacar que a zuera da escola pública onde estudei que aderi era semente de um sistema falho e que eu colheria frutos ruins mais pra frente. Mas agora que eu sei de tudo isso, eu sou a chata. Agora, depois de ter passado por 3 universidades que meus pais batalharam junto comigo pra conseguir, ninguém aguenta falar comigo. Porque a minha paixão pelo que aprendi e pelo meu país incomoda. Porque ela é diferente da paixão deles.

Eu sei o que vocês falam de mim. Que eu começo um monte de coisa, não termino nenhuma. Alá a Raabe, a pessoa inteligente e mais sem sabedoria que já conheci. Que eu não ajudo ninguém, que não pode contar comigo. Ninguém me conhece por tempo suficiente e fica. Consigo contar em uma mão os que ficaram (além da minha família). E eu sei, eu sou chata, dá pra entender. Desde muito cedo pensei fora do padrão. E é verdade, eu não terminei nenhum dos meus cursos, por vários motivos. Mas cada um deles me deu bagagem e conhecimentos e amizades e contatos que eu nunca teria, tivesse eu ficado no meu mundinho. Eu sou péssima, mas menos péssima do que antes. Da mesma maneira que eu assistia aulas de história do Brasil, olhava pra situação do momento e pensava “ta ruim, mas menos ruim que ontem”.

Dessa vez não. Dessa vez parece que vai estar mais ruim que ontem por um tempinho. Só que eu não vou dar uma volta no quarteirão, eu vou ficar bem aqui. Pronta de mente e de corpo, porque a estrada vai ser esburacada. Nessa altura do campeonato dói. Mas a gente vira junto com o barco.

E vamo que vamo, porque esse ciclo acabou de recomeçar.

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