#canyounot

Tem como você não olhar as fotos dele, mesmo que de vez em quando? Tem como você não ler o que ele escreve, nem se admirar com o posicionamento político dele?

Tem como você não se esquecer que foi ele quem te deixou sem respostas quando você tinha tantas perguntas? (Tem como você não se esquecer que não tem essas respostas até hoje? Tem como você não deixar de entender que não ter respostas é uma resposta?)

Tem como você não sentir borboletas no estômago quando o vê ou sorrir abobalhada quando ele sorri?

Tem como você não achá-lo mais bonito porque ele partiu seu coração quando seu coração nem devia ter sido partido?

Tem como você não sonhar só dessa vez, porque sonhar é overrated e sonhar não leva a muitos lugares?

Tem como você não andar com a cabeça nas nuvens e perceber que está acabado aquilo que nem foi começado?

Tem como?

And I think to myself… is it worthy?

É maio e eu estou no Rio de Janeiro desde 9 de fevereiro. Eu não achei que viria, mas eu vim. Com pouco dinheiro e muita coragem eu vim. Disposta a estudar e aprender e sem muito foco em fazer amigos. A universidade forma um universo complexo e não se pode saber muito bem o que esperar dela.

É maio e minha família em Campinas está passando dificuldades. Eu tinha um emprego que me garantiram o contrato assim que se passassem os meses de experiência. Faltavam 18 dias para eu ser funcionária oficialmente e eu larguei tudo porque o Governo me mandou uma mensagem de texto dizendo que eu tinha sido aprovada na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Eu queria passar, mas nunca, por um segundo sequer, achei que passaria (e fiz um bom trabalho ao fingir confiança no meu desempenho no vestibular). Fui pega de surpresa e meus pais (“Tem certeza que não quer ir pra São Carlos?” “Tenho.”) apoiaram, mas está todo mundo duro.

É maio e domingo é dia das mães e eu tenho R$0,25 na minha conta, porque não importa que eu tenha solicitado bolsas (uma delas com o irônico nome de “Acesso e permanência”) e esperado pela boa vontade dos funcionários – em greve, sempre em greve – se posicionarem, não importa que eu tenha largado o emprego, a cidade e o estado onde nasci, a família para estar aqui: não recebi um centavo do auxílio que preciso tanto.

É maio e três coisas me salvaram: a. minha família, em Campinas, de cintos apertados me mandando o que pode quando pode; não é muito, mas dá pra pagar as inúmeras cópias que precisamos tirar toda semana, o bandejão dos três dias que preciso ficar pras aulas da tarde. Nem sempre. Mas ajuda por boa parte do mês. b. a única coisa decente aplicada na cidade do Rio de Janeiro nesse primeiro semestre – o passe livre universitário. Sem ele, eu já teria voltado para Campinas na metade de março. Como você quer, Governo Federal, que eu pague de 6 a 12 reais todos os dias, coma, compre o material exigido em aula, tendo R$200,00 por mês? Definitivamente teria durado duas semanas. c. a família, cuja situação financeira é bem parecida com a da minha, com seus altos e baixos aqui e ali, que me acolheu sem que eu tivesse certeza se merecia (e ainda não tenho).

É maio e a casa onde moro atualmente era para ser meu lar por apenas dois meses, porque eu conheço universidades públicas e os alunos que precisam conseguem auxílio rápido e moradia e alimentação e transporte, então eu iria morar em algum outro lugar, mas eu ainda estou aqui porque eu nem mesmo sei se será possível sair o resultado do auxílio moradia que pedi em fevereiro. E está me matando que seja maio e eles já fizeram tanto por mim e eu não possa dar NADA em troca, porque tem R$0,25 na minha conta e eu tive que perder todas as aulas da tarde essa semana por não ter dinheiro nem para bandejar. (I’m sorry, Tha-Tha, I’m so sorry.)

É maio e eu já sabia o que é estar na universidade pública. Meus anos na UNICAMP foram suficientes para desmistificar qualquer deslumbramento. Esqueça o quão inteligente você era entre os colegas da escola pública, aqui é trabalho de verdade, estudo de verdade. Aqui a vida é dura. Mas olha, a universidade quer o seu melhor, e se tá doendo no bolso, vem aqui, vamos conversar. Três anos de UNICAMP e com todos os seus defeitos, mesmo eu morando ali do lado, eles me ouviam quando eu contava que não estava dando e me arranjavam alguma coisa – qualquer coisa (panfletagem na saída do bandejão, na maioria das vezes) – para me ajudar.

É maio, a UFRJ está de greve, tem R$0,25 na minha conta e eu estou pensando comigo porque tem tanta gente que se orgulha de estudar na Federal. Eu já experienciei dois cursos melhores do Brasil (a biologia da Unicamp e agora a Letras da UFRJ) e não importa. Não importa que o curso seja perfeito, que eu tenha professores incríveis e que meu conhecimento esteja se expandindo. Não importa que tenha todo o prestígio acadêmico que tem, sabe por quê? Porque a impressão boa nunca fica. Eu larguei absolutamente tudo para estar aqui e não recebi nada em troca. Nem um “não”. As reivindicações dos alunos são ignoradas, as reivindicações dos funcionários são ignoradas, o bloco F do prédio de Letras fede tanto quanto o Tietê há ANOS e NINGUÉM resolve os problemas.

É maio e graças a Deus eu tenho minha família e o bilhete único universitário e uma família que cedeu um espaço da pequena casa alugada onde eles moram na zona norte. Eu não tiro xerox e não como na universidade, mas ainda posso voltar para casa e encontrar algo para comer, internet para fazer trabalhos e um lugar para dormir. Mas e os outros alunos que vieram de outros lugares? Que também largaram tudo e não tiveram a oportunidade de encontrar onde ficar? Como se paga aluguel? Como se locomove? Não, né? Não sai do lugar, não come, não estuda. Porque a universidade não se importa e porque o Governo Federal se importa menos ainda.

É maio e o estudo que eu esperei ter estou tendo, os amigos que não esperei fazer estou fazendo, mas as oportunidades que eu tinha fé que teria não estou tendo. Tudo de bom que tem acontecido contrabalanceia o ruim? A resposta é um fácil não. Mais coisa ruim do que boa não rende diploma para ninguém. Eu não posso ficar nessa casa por 4 anos, eu não deveria nem estar aqui hoje. E se, Deus do céu, eu pelo menos soubesse se minha bolsa moradia foi aprovada ou não, eu teria alguma ideia do que fazer. (Should I stay or should I go?). Mas não.

É maio e quando eu penso em ir pra universidade eu penso em ir para casa; eu penso em Campinas e na UNICAMP e começo a reconsiderar se devo tentar voltar para lá, porque eu prefiro o sofrimento do estudar sem muito auxílio do professor do que o sofrimento de não saber se o dinheiro vai dar até o final do mês ou se dessa vez vai dar pra ajudar um pouco nas contas da casa – aqui e lá -, de saber que o que eu estou sofrendo é compartilhado com todos aqueles diretamente ligados a mim e esse sofrimento me mata.

É maio, é meu primeiro ano e eu já estou tão cheia de tanta coisa errada e pela metade e mal feita. (Era assim que você se sentia, mãe?)

É maio e graças à Copa só temos mais um mês de aulas. Minha amiga se pergunta se, quando ela entrar na metade do ano, a greve já vai ter terminado. E eu penso comigo se vale a pena voltar em agosto.

UPDATE: A bolsa de auxílio e permanência caiu no dia seguinte à publicação desse texto e pude ser o presente surpresa da minha mãe no dia das mães, pude dar um pouco de dinheiro para a família que tem me hospedado. Não é muito, mas pelo menos ter caído o dinheiro acumulado salvou o mês. Mas o que importa, que é a moradia, nada.

UPDATE 2: Mandei outro email para a Divisão de Apoio ao estudante, contando inclusive sobre a existência desse texto e recebi uma resposta interessante (:

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#chat

“Eu estava devendo uma conversa.” ele diz, se aproveitando do momento em que ela está sozinha. Ela o encara verdadeiramente surpresa.

“Sim.”

“Tudo bem?” ele cumprimenta de verdade, com o único beijinho no rosto característico dos paulistas.

“Tudo cansado.” ela responde com um risinho que mostra mesmo todo o cansaço de seu corpo.

“Vamos pagar essa conversa com uma cerveja?”

“Eu não bebo.”

“Com uma Coca-Cola, então.”

Ela sorri. Aquiesce.

Eles vão. Ele paga o refrigerante, mas ela paga o que comeu. E eles conversam. Não aquela conversa em dívida há meses. Apenas uma conversa. É melhor do que qualquer coisa que tivessem para falar.

Ele passa por ela sem nem cumprimentar. O lembrete de uma dívida passa por sua cabeça. Uma conversa é formada em seu cérebro.

#complexo

Ela entendeu tudo errado.

Não era a outra quem sofria por ele. Não era a outra quem tinha sido chutada por ele. Nunca tinha sido.

Era o contrário.

Ele estava de coração partido e ela nem percebeu. Ele era discreto por causa da outra. E ele não se aproximou porque não tinha interesse, mesmo depois de tantas dicas. Tudo culpa desse gene complexo que os homens têm, capaz de disfarçar emoções.

É verdade que ela sempre soube que não tinha chance, verdade que sabia que qualquer concorrência era melhor que ela.

(Não venha com essa de que “personalidade é melhor do que qualquer beleza”. É baboseira e você sabe muito bem disso. Ela sabe muito bem disso. É difícil não saber quando a única coisa que se conhece de verdade é a sua feiura. Não há personalidade que apague isso.)

(E, se tem uma coisa que ela tem consciência, é da sua falta de beleza. Às vezes ela queria esquecer disso só por um dia que fosse, mas essas coisas nunca deixam de ser reais.)

A outra voltou para ele. E esse era o fim de mais um “talvez”.

#injusto

Tem aquelas pessoas que são tão bonitas que chega a ser injusto. Atrizes australianas de pele levemente dourada e grandes olhos claros. Homens britânicos que conseguem fazer todas cairem de amor só com o som de sua voz e, como se isso não fosse suficiente, precisam ter aquele rosto encantador.

(Tom Hardy, o assunto é você)

Gente que é real, adolescentes no ensino médio que pegam o mesmo ônibus que você para voltar para casa. Olha para você, como é linda. Olha que coisa mais gracinha de menino.

Ela sabe o que é ver pessoas bonitas, mas não sabe o que é ser vista. Ser invisível sempre foi sua especialidade. É preciso fazer muito barulho para receber atenção, tendo o rosto que ela tem.

Quer dizer, talvez seu peso chame a atenção devida.

Mas ser gorda não é um assunto positivo no mundo em que vive. A garota não para de comer, como ela consegue? Quando você vai parar de engordar? Quando você vai emagrecer?

Oh, eu queria que fosse simples assim, ela pensa. Queria tirar da cartola a dieta mágica das celebridades que aparecem magérrimas após uma gravidez cheia de quilos ou uma fase de excesso de peso. Queria ter disciplina e dinheiro para comer direito e fazer academia.

Sinto muito disapontá-lo, mas talvez ela apenas esteja tentando se colocar cada vez mais no lugar que acha que pertence, num corpo que sempre foi falho. Talvez não se ache digna de ter um corpo magro se não tiver a pele bonita que sempre quis ter ou o rosto delicado que sempre sonhou. Ela nunca estará perto do que é injustamente belo.

Talvez ela apenas esteja se escondendo em si mesma e, por mais que se odeie, não encontra motivos para reverter nada.

#nope

Não é você, sou eu

Não entenda errado, por favor

É difícil de explicar

Eu não sabia o que dizer

Não é como se algo tivesse acontecido

Cale a boca, ela grita em silêncio. Não pedi para você falar nada. Apenas cale a boca.

Ela vê dedos entrelaçados em dedos que não são os dela. Vê sorrisos que não são para ela. Vê a palavra sendo repetida diversas vezes. Diversas vezes. Diversas vezes.

Não. Não dessa vez.

Ela diz para si mesma que seu coração está tranquilo (Ele está. Ele com certeza está. Sério.), mas olha para suas mãos e elas não estão dadas com nenhuma outra; sorri, mas é para o vento com quem dialoga.

O sorriso se desmancha por um instante e ela respira fundo.

Cale a boca. Apenas cale a boca, cérebro.

Volta a sorrir.

#alok

Ela sofria de um problema sério chamado “sonhar acordada e imaginar conversas inteiras que nunca ocorreriam na vida real”. Repetia para si mesma que provavelmente iria gostar da supresa que o destilho lhe traria dessa vez, mas nunca tinha certeza absoluta.

E oscilava entre achar que saber do futuro seria uma benção ou maldição.

Lá dentro, ela queria que tudo se resolvesse o mais rápido possível, mas sabia que não era assim que as coisas funcionavam.

Tempo é relativo. Ela não podia esperar que tudo acontecesse quando ela bem queria, era simplesmente errado.

Então ela tentava fazer da paciência e do domínio próprio seus melhores amigos (chegando à cobclusão muitas vezes ao dia que aquela era uma amizade bem turbulenta).